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Leilão de aeroportos ‘encolhe’ e 4 grupos têm interesse firme, diz o Valor

Pelo menos quatro grupos se preparam para entregar hoje, na BM&F Bovespa, propostas para o leilão de quatro aeroportos à iniciativa privada: Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Florianópolis.

Desistências de última hora reduziram a lista inicial de pretendentes. O último desfalque foi confirmado na sexta-feira: a espanhola OHL, que tinha planos de marcar sua volta ao Brasil e estudava os editais com a Korea Airports Corporation (KAC) e com a construtora Rio Verde, resolveu não apresentar ofertas.

Apesar dos riscos apontados pelo mercado nas concessões, o governo está confiante no sucesso da licitação e aposta que nenhum dos ativos ficará sem interessados, mas a expectativa oficial é de lances bem mais contidos do que no passado e ágio relativamente modesto como resultado final. O valor mínimo de outorga chega a R$ 3,01 bilhões.

Dois consórcios com empresas alemãs já são tidos como presença certa. Fora das primeiras rodadas de concessão no setor, a Avialliance formou uma parceria com o Pátria Investimentos. Sem ter levado nenhum ativo nos leilões anteriores, a Fraport pretende entrar na disputa junto com a construtora paranaense CR Almeida.

Outras duas operadoras europeias de aeroportos devem aparecer sozinhas: a suíça Zurich, que acabou rompendo esperada dobradinha com o fundo brasileiro de investimentos Vinci Partners, e a gigante francesa Vinci Airports.

A concorrência ainda tem boas chances de ganhar o reforço da espanhola Aena. A estatal comunicou na semana passada ao Palácio do Planalto a intenção de participar, mas ainda pedia ajustes no edital, que ensejou uma dúvida potencialmente conflitante com a Lei das Sociedades Anônimas para abrir subsidiária no Brasil com menos burocracia. Se não houver um aceno formal de Brasília de que os ajustes serão feitos, a empresa desistirá de entrar no certame.

Apesar dos riscos apontados pelo mercado, governo crê que nenhum ativo ficará sem interessados

Os envelopes com as propostas serão abertos na quinta-feira e há possibilidade de disputa em viva-voz entre quem tiver apresentado os três lances mais altos.

Trata-se do principal teste de confiança dos investidores em infraestrutura logística, até agora, no governo do presidente Michel Temer. Na tentativa de atrair o capital privado, as condições de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) melhoraram e a força-tarefa do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) criou um mecanismo de proteção cambial para reduzir o risco de variações súbitas do real.

O instrumento foi visto como positivo, mas não é condição única para a decisão de entrar ou não no certame. “Financiamento nenhum conserta um projeto se ele é ruim”, observa uma fonte.

Além da OHL, outras duas empresas estrangeiras haviam jogado a toalha: a Ferrovial, operadora do aeroporto de Heathrow (Londres), e o Grupo Aeroportuario del Pacífico (GAP), que administra 13 terminais de médio porte no México e na Jamaica.

Há pouco mais de um mês bastante inclinada a não participar da disputa, a brasileira CCR ainda pode mudar sua estratégia, segundo pessoas próximas à companhia, que já controla o aeroporto de Confins (MG). Ela estava pronta para investir até R$ 3,5 bilhões em obras não previstas na Nova Dutra, rodovia que liga Rio de Janeiro a São Paulo, mas o governo decidiu não mais prorrogar a concessão como contrapartida e o projeto foi para a gaveta.

Resultado: com folga de caixa, já que fez recentemente uma captação de R$ 4 bilhões, a CCR pode agora alocar esses recursos nos aeroportos. Ela tinha interesse em Salvador, mas achava os estudos de demanda superestimados e dava preferência à compra de ativos em infraestrutura que estão sendo oferecidos no mercado por outros grupos com dificuldades financeiras.

Às vésperas do leilão, a Inframérica ainda não havia decidido se entraria no certame. Controlada pelos argentinos da Corporación América, ela é a única que detém duas concessões de aeroportos no Brasil em Brasília e São Gonçalo do Amarante (RN).

Chama a atenção que somente grandes operadoras internacionais ficaram na disputa. Uma explicação é que apenas os gigantes conseguem trabalhar com margens menores e, por serem players globais, precisam aumentar o portfólio. Atualmente não existem muitas concessões de novos aeroportos no mundo.

Mesmo com as baixas recentes, o governo acredita no êxito da licitação e descarta a possibilidade de adiamento. “Quem ficou pelo meio do caminho eram os grupos que não haviam estudado tanto os projetos e tinham menos apetite”, disse ao Valor o secretário de coordenação de projetos do PPI, Tarcísio Gomes de Freitas. “Temos a expectativa de que todos os aeroportos recebam propostas, mas dificilmente com grandes ágios. São ativos bons e com taxas de retorno adequadas”, completou o executivo.

Diferentemente das rodadas anteriores, os vencedores precisarão pagar à vista 25% do preço mínimo dos aeroportos e todo o valor do ágio. “Queremos evitar a repetição dos erros do passado.”

Freitas refere-se aos lances excessivamente agressivos nos leilões de 2012 e de 2013. Suas regras definiram que as concessionárias devem pagar a outorga em parcelas iguais e anuais ao longo de toda o contrato. Algumas, como a do Galeão (RJ), ficaram sem dinheiro para honrar seus compromissos. Não à toa, a operadora asiática Changi sócia da Odebrecht no terminal carioca nem cogitou participar desta vez.

O secretário não comenta prós e contras de cada um dos aeroportos oferecidos nesta semana. Mas, no governo, avalia-se reservadamente que a maior procura deve ser por Fortaleza. A francesa Vinci, que adquiriu os aeroportos de Portugal, é vista como favorita devido às sinergias que pode criar com o eventual fortalecimento das rotas Brasil-Europa, tendo a capital cearense e Lisboa como aeroportos concentradores os chamados “hubs” em cada ponta.

O aeroporto de Florianópolis desponta como o menos atrativo entre os quatro ativos. Salvador é a grande dúvida: o governo vê bom potencial de desenvolvimento e de negócios, mas também os maiores riscos, como restrições ambientais para a futura construção da segunda pista.

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