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LULA E A CONTA SECRETA é o título de reportagem na Veja

O EX-PRESIDENTE Luiz Inácio Lula da Silva já teve momentos de algum alívio e de muito desespero no curso das investigações da La-va-Jato. Na semana passada, inaugurou-se outro ciclo de calvário com a confirmação, por parte dos executivos da Odebrecht, de que o codinome “Amigo” inscrito nas planilhas de propina da empreiteira se refere, como se suspeitava, ao ex-presidente. A empresa mantinha uma espécie de conta secreta com três subdivisões com nomes em código e os respectivos valores: “Itália”, “Pós-Itália” e “Amigo”. O mistério está desvendado. Já se sabia que “Itália” era o codinome do ex-ministro Antônio Palocci, que aparece com crédito de 6 milhões de reais. “Pós-Itália” era o do ex-ministro Guido Man-tega, com 50 milhões de reais. Agora, tem-se a certeza de que “Amigo” identifica o ex-presidente em uma conta que chegou a ter 23 milhões de reais entre 2010, quando Lula terminou seu segundo mandato, e 2014, quando a Lava-Jato começou a derrubar o esquema do petrolão.

No depoimento em que confirmou a identidade do “Amigo”, o executivo Hilberto Mascarenhas, da Odebrecht, também contou que, de 2006 a 2014, o departamento de propina da empreiteira pagou a estupenda soma de 3,4 bilhões de dólares, o equivalente a 10 bilhões de reais, em subornos no Brasil e no exterior. A grandeza do valor dá até a impressão de que construir hidrelétricas e pontes e estradas e estádios de futebol era uma atividade paralela da empreiteira, enquanto sua missão principal era sair molhando a mão de autoridades públicas no Brasil e pelo mundo afora. Entre elas, pelo que mostram documentos e depoimentos, estava o ex-presidente Lula. Os papéis apreendidos pela Polícia Federal revelam que a sub-conta “Amigo” registrava um saldo de 23 milhões de reais emjulho de 2012. Entre novembro daquele ano e outubro de 2013, as anotações mostram que houve um abatimento de 8 milhões. As retiradas foram anotadas sob códigos: Programa B4 e Programa B5. Qual o destino do dinheiro? A Polícia Federal sustenta, em documentos obtidos por VEJA, que o valor se refere a repasses feitos pela empreiteira para duas operações imo-biliárias de interesse do ex-presidente, ambas executadas por meio de laranjas: a compra do terreno onde seria erguida a nova sede do Instituto Lula, na capital paulista, e a compra de um apartamento vizinho ao da família Lula da Silva, em São Bernardo do Campo. Nos dois casos, as negociações foram intermediadas por Roberto Teixeira, advogado e compadre do petista. Como comprador, em ambas as transações, aparecia o nome de Glaucos da Costamarques, primo do pecuarista José Carlos Bumlai, outro compadre do ex-presidente. As relações financeiras de Lula com a empreiteira estão detalhadas em alguns dos mais importantes capítulos da delação da Odebrecht. Pelo menos quatro executivos da companhia falaram sobre o assunto em seus depoimentos.

O último registro de movimentações financeiras envolvendo o “Amigo” ocorreu já durante as investigações da Lava-Jato. Em outubro de 2014, o departamento de propina da empreiteira contabilizou um saque de 300 000 reais. O dinheiro, de acordo com as anotações, foi enviado a um tal de “Paulistinha”. Segundo Maria Lúcia Tavares, funcionária da Odebrecht e a primeira a delatar o esquema da empreiteira, “Paulistinha” é o apelido do doleiro Álvaro Novis, responsável por providenciar o repasse de propinas a políticos em São Paulo e no Rio de Janeiro — entre eles, o ex-governador Sérgio Cabral, o “Proximus”.

Ao que tudo indica, o codinome “Amigo” nasceu da amizade que unia o ex-presidente e Emílio Odebrecht, pai de Marcelo Odebrecht. Lula e Emílio se conheceram na década de 80, quando o ex-presidente, ainda na condição de sindicalista, fundou o PT. Desde então o empresário ajudou financeiramente as campanhas de Lula e do partido — quase sempre de maneira clandestina. Terminadas as eleições municipais de 2005, o PT tinha acumulado uma dívida de 15 milhões de reais. Quem pagou? Segundo revelou o marqueteiro Duda Mendonça, a Odebrecht. No governo, por várias vezes, Lula e Emílio se encontraram para fumar charutos cubanos e beberam vinho no Palácio da Alvorada. Em 2002, Emílio se afastou da empresa e aos poucos foi cedendo a cadeira principal a seu filho, Marcelo, mas continuou monitorando os negócios — e os amigos, como revelam mensagens apreendidas pela polícia. Em junho de 2007, por exemplo, um diretor da Odebrecht, Irineu Berardi Meireles, escreveu para Marcelo falando sobre o projeto da construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio. Dizia o seguinte: “Anexo para sua apreciação o quadro para ser entregue ao amigo de seu pai”. Em abril de 2013, outro diretor da Odebrecht, Alexandrino Alencar, escreveu para Marcelo, depois da viagem na qual acompanhou o ex-presidente pela África: “A reunião com o amigo de seu pai foi boa”.

A conta do “Amigo” e seus 23 milhões de reais reforçam as suspeitas sobre a relação estelar de Lula com a Odebrecht. Fazem parte da constelação a reforma que a empreiteira bancou no sítio de Ati-baia, onde Lula se instalou ao deixar a Presidência, e as viagens internacionais feitas à custa da Odebrecht e de outras empreiteiras, nas quais se misturavam a influência política do ex-presidente, o interesse das empresas em fechar contratos bilionários com governos estrangeiros e uma triangulação de pagamentos, via palestras, ainda obscura. Em sua proposta de delação, Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, afirmou que as palestras de Lula que as empresas contratavam eram uma maneira de remunerar indiretamente o ex-presidente pela “capacidade que ele tinha de influenciar as autoridades”. Falta definir o que exatamente quer dizer “influenciar”.

Na semana passada, o calvário de Lula não se ampliou apenas com a Odebrecht. O ex-presidente colheu três derrotas. Um juiz de Brasília negou seu pedido para depor por teleconferência. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) se recusou a suspender o processo em que ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro por ter recebido favores milionários da empreiteira OAS, incluindo a reforma de um apartamento tríplex no balneário do Guarujá. E o Tribunal Regional Federal da 4â Região rejeitou seu pedido para punir o juiz Sérgio Moro por abuso de autoridade.

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