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Espero que a bola abaixe, diz Aloysio Nunes sobre políticas de Trump é o título de matéria na Folha

O novo ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, criticou a política do presidente americano, Donald Trump, para imigrantes mexicanos e disse esperar que “essa bola baixe”.

“A quantidade de trabalhadores mexicanos [nos EUA] é enorme. [Trump] vai brigar com esse povo todo? Espero que essa bola baixe. Muito daquilo que foi dito na campanha foi ofensivo. Espero que esse clima se dissipe”, disse Aloysio em entrevista à Folha.

Empossado nesta semana, o chanceler fez sua primeira visita à Argentina na quinta-feira (9).

Participa de reunião com os países da Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile) em abril e, em junho, os sócios do Mercosul recebem a comissária de comércio da União Europeia, Cecilia Malmström, em Buenos Aires, para discutir o acordo entre UE e Mercosul, que se arrasta há mais de dez anos. Abaixo, trechos da entrevista que concedeu à Folha.

Folha – Quais os próximos países com os quais o Brasil gostaria de negociar acordos bilaterais?

Aloysio Nunes – Neste momento queremos é fazer o Mercosul funcionar conforme ele foi concebido originalmente, como uma zona de livre comércio, removendo as barreiras à livre circulação das mercadorias.

Muitas delas já perderam sentido, mas vão se mantendo por pressão corporativa ou burocrática. São 80 medidas para lidar com barreiras tarifárias, regulatórias, fitossanitárias, que, muitas vezes, não têm nenhum fundamento. Parece uma lista de supermercado.

Isso é algo que precisa ocorrer antes de o Brasil buscar novos acordos bilaterais?

Isso é resultado de uma conversa entre o [presidente Michel] Temer e o [presidente argentino, Mauricio] Macri. Já estão em preparação três acordos importantes com esse objetivo de dar vida ao Mercosul —facilitação de investimentos, de comércio e compras governamentais. Isso em relação ao Mercosul, que, de alguma forma, vai nos dar parâmetros para negociação com outros países fora do Mercosul.

Dos acordos, qual é mais promissor?

O que está mais à mão hoje é do Mercosul com a União Europeia.

No ano passado, quando Trump foi eleito, o sr. fez críticas a ele. Qual vai ser a relação do Brasil com os EUA?

A política do Brasil em relação aos EUA é buscar sempre uma relação de bom entendimento em todas as áreas. Não pode ser diferente.

Depois do estresse da espionagem, a visita da presidente Dilma aos EUA contribuiu para que nós entrássemos num compasso positivo com os EUA.

A partir daí, foram identificados vários temas que deveriam ser objeto de trabalho. Tomei conhecimento disso quando fui lá representando o governo brasileiro “em busca de cobertura do imperialismo para o golpe”. (risos).

O fato é que agora, com [embaixador em Washington] Sergio Amaral, vamos seguir esta linha. Não temos nenhum contencioso com a política do Trump. Não temos emigração numerosa, não somos fornecedores de armas, de drogas, o Brasil importa mais do que exporta para os EUA.

Como o Brasil vai agir em relação ao aumento de deportação de brasileiros?

Se for uma coisa generalizada, nós vamos reagir no plano político. Senão, vamos reagir na assistência consular.

Como o sr. vê esse tipo de política cada vez mais xenófoba, partindo do muro até o veto a cidadãos de alguns países de maioria muçulmana?

Isso contradiz a minha maneira de ver o ser humano, a convivência entre as pessoas. Acredito no intercâmbio, na liberdade. A xenofobia é algo que me choca.

O sr. defende um estreitamento da relação entre o Brasil e o México, agora que aumentou a tensão com os EUA?

Mesmo antes disso, por causa da importância econômica e cultural do México. Mas o México continuará tendo uma interpenetração humana e econômica com os EUA que não vai acabar por causa do muro.

As empresas mexicanas, muitas delas de capital americano, fornecem para o mercado americano. A quantidade de trabalhadores mexicanos (nos EUA) é enorme. [Trump] vai brigar com esse povo todo?

Espero que essa bola baixe. Muito daquilo que foi dito na campanha foi ofensivo. Espero que esse clima se dissipe. Nós já temos acordos comerciais e de preferências com o México que estão sendo ampliados.

Pretendem manter a política de isolamento da Venezuela?

A Venezuela está suspensa do Mercosul, e só voltará a entrar se incorporar alguns compromissos que assumira. Isso depende de aprovação pelo parlamento venezuelano, o que implica alguma normalização entre legislativo e executivo do país.

Qual é o próximo do passo do Brasil em relação à Venezuela?

Há quem queira aplicar a cláusula democrática pelo Mercosul, expulsar o país de vez. Mas não há consenso. Alguns consideram que a aplicação da cláusula democrática poderia ser usada pelo governo Maduro como instrumento de legitimação —o cerco do inimigo externo, o imperialismo.

Há três pontos que unificam a oposição venezuelana: libertação de presos políticos; prerrogativas do parlamento, que está sufocado, não recebe sequer salário; e a principal são as eleições municipais e regionais.

O medo da oposição é que a data dessas eleições seja adiada eternamente porque o governo venezuelano, que manipula a comissão eleitoral, está impondo novas regras para o funcionamento de partidos políticos, de modo a inviabilizar os partidos de oposição.

Sua intenção é ficar no ministério até o fim do governo ou o sr. cogita sair antes para disputar a eleição?

2018 é algo em que estou proibido de pensar. Precisamos chegar em 2018 como um país normal. Acho que dá tempo: está todo mundo de saco cheio no Brasil de ver essa tensão permanente, esses sobressaltos, e o país começa agora a reagir ponto de vista da economia e tem um governo com a cabeça no lugar.

Quando o sr. tiver que explicar o que é o Brasil hoje, levando em conta a economia, a Lava Jato e a legitimidade do governo, qual mensagem vai passar?

Vou sempre falar das coisas boas do Brasil: é um grande país democrático, com eleições livres, limpas e periódicas, cujas instituições passaram por um teste duro do impeachment.

Direi que é uma grande potência agroindustrial e há preocupação com desenvolvimento sustentável.

Mas e se perguntarem sobre Lava Jato?

São investigações que estão em curso. Não se pode confundir acusado com condenado. Porque hoje no Brasil há varias categorias —condenado, processado, denunciado, indiciado, o investigado no inquérito e agora se criou mais uma, o mencionado.

Mas os estrangeiros vão entender essas diferenças?

Vou dizer que havia um sistema corrupto no Brasil. Eram focos dessa doença que, no governo do PT, se transformou em uma septicemia envolvendo muita gente e está sendo agora investigada. Isso cria problemas de natureza política, cria uma aversão aos políticos, mas este é o Brasil que temos e é isso que estamos enfrentando. O governo está dando resultados.

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