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A SENHA ERA “ANGORÁ” é o título de reportagem na Veja sobre Padilha

Doleiro do Rio Grande do Sul foi encarregado de entregar 1 milhão de reais em dinheiro vivo ao ministro-chefe da Casa Civil thiago bronzatto

EM MEIO AS ELEIÇÕES de 2014, funcionários da Odebrecht entraram em contato com o doleiro gaúcho Antônio Cláudio Albernaz Cordeiro, o Tônico, para montar uma operação de emergência. Pediram a ele que repassasse 1 milhão de reais em dinheiro vivo. Os recursos foram entregues por um emissário da Odebrecht no escritório de Tônico, em Porto Alegre. Um homem alto, de cabelos grisalhos, bateu à porta do doleiro e, sem se identificar, foi logo dizendo: “Angorá”. Era a senha para que Tônico liberasse o dinheiro para o desconhecido, sem a necessidade de explicação alguma.

O relato consta de um depoimento sigüoso prestado pelo doleiro à Policia Federal na Operação Lava-Jato — e confirma as revelações feitas por delatores da construtora em acordo de colaboração. Segundo depoimentos de ex-executivos da Odebrecht, a quantia de 1 milhão de reais que passou pelas mãos de Tônico tinha como destinatário final Eliseu Padilha, atual ministro-chefe da Casa Civil.

Os recursos faziam parte de um repasse maior acertado entre a Odebrecht e Padilha três meses antes, num jantar no Palácio do Jaburu, em Brasília. Naquela ocasião, o então deputado Eliseu Padilha, o vice-presidente Michel Temer, o empreiteiro Marcelo Odebrecht e Cláudio Melo Filho, diretor de relações institucionais da construtora, acertaram que a Odebrecht desembolsaria 10 milhões de reais para as campanhas do PMDB. Conforme a empreiteira, parte dos recursos, 6 milhões de reais, foi endereçada à campanha do empresário Paulo Skaf ao governo de São Paulo. A outra parte, 4 milhões, foi direcionada a Padilha — que repassou 1 milhão ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e recebeu o restante, 3 milhões, em parcelas. Esses recursos, segundo os delatores da Odebrecht, foram entregues tanto em Porto Alegre, por meio de “Tônico”, como em São Paulo, no escritório do advogado José Yunes, amigo de Temer.

VEJA publicou em fevereiro uma entrevista com José Yunes na qual ele relatava ter recebido em seu escritório um “pacote” das mãos do operador Lúcio Funaro, ligado a Eduardo Cunha. Depois, alguém que o advogado não soube identificar passou no escritório e pegou o “pacote”. Funaro confirmou que esteve no escritório de Yunes, mas negou que tenha levado qualquer “pacote” ao advogado. Todos os elementos da operação — a visita misteriosa, o pacote estranho e o personagem oculto — teriam sido orquestrados por Eliseu Padilha.

Nesta semana, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, solicitará ao ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, a abertura de um inquérito para investigar Padilha sob a suspeita de crime de corrupção. Temer não entrará na lista de Janot porque a lei proíbe a investigação do presidente por fatos anteriores ao mandato presidencial. Além dos depoimentos de Padilha, Yunes, Funaro e Tônico, os procuradores pretendem pedir a quebra de dados telefônicos, imagens de câmeras de segurança e registros de entrada nos escritórios em São Paulo e em Porto Alegre.

Em depoimento à Polícia Federal, o doleiro gaúcho confessou que, para atender aos pagamentos de propina da Odebrecht, recebia dinheiro da empresa no Panamá e, em seguida, disponibilizava o valor em espécie no Brasil. Cobrava uma comissão de 3% sobre o volume movimentado. Preso em março do ano passado na 26â fase da Lava-Jato, Tônico diz que não conhece Padilha pessoalmente e que nunca esteve com ele. VEJA teve acesso a trechos do seu depoimento. Indagado sobre a identidade de quem buscou o dinheiro, disse que “uma pessoa diferente compareceu para a retirada dos valores, que não sabe declinar o nome, sabendo apenas tratar-se de um senhor alto, com idade aproximada de 55/60 anos e totalmente grisalho”. Informou também que a operação foi absolutamente atípica. Ao contrário do que normalmente acontecia, foi a Odebrecht que levou o dinheiro ao doleiro, porque a construtora tinha pressa na entrega dos recursos: “Essa operação chamou a atenção do declarante em razão de não ter contrapartida em dólares nas contas do declarante, sendo que o mesmo apenas emprestou seu escritório para a liquidação”.

Licenciado do governo para tratamento de saúde, Eliseu Padilha disse que não se manifestaria. O ministro sempre negou ter recebido qualquer quantia em dinheiro da Odebrecht. Nos registros do setor de propina da empreiteira, o ministro Moreira Franco é apelidado de “Gato Angorá”, mas o codinome “Ango-rá”, apenas “Angorá”, foi usado para identificar o ministro-chefe da Casa Civil. Às vezes Padilha também aparece nas planilhas com o codinome “Primo”.

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