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Consumo das famílias recua 4,2% em 2016, mas renda cai menos, diz o Valor

O tombo inédito do consumo das famílias observado em 2016, de 4,2%, levou o componente mais relevante do Produto Interno Bruto (PIB) pelo lado da demanda de volta a níveis de 2011. Ao contrário do ocorrido nas recessões mais recentes, porém, a massa de rendimentos caiu menos do que o consumo, descompasso que pode representar um alento à atividade este ano.

Pelos cálculos da LCA Consultores, incluindo, além da massa de renda do trabalho (a combinação entre o salário médio real e o número de trabalhadores), a de benefícios previdenciários, a massa de renda real das famílias diminuiu 3,2% entre 2015 e 2016 – um ponto a menos do que o PIB. Considerando 2014 como base, a demanda privada teve redução de 8,2%, enquanto a massa de rendimentos caiu 6,4%.

Na série da LCA, com início em 1998, o consumo caminhou acima da renda de 2003 a 2011. Essa “vantagem”, alcançada graças ao aumento das concessões de crédito, foi zerada no período de 2012 a 2014, quando os dois indicadores tiveram comportamento bastante próximo. A partir de 2015, num contexto de grave recessão, a demanda das famílias passou a mostrar retração mais acentuada do que a renda.

“As famílias pouparam mais para pagar dívidas”, diz Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria. Num período de incerteza elevada e avanço do desemprego, os consumidores priorizam guardar recursos e reduzir seu nível de endividamento, o que explica a redução maior do nível de consumo do que da renda disponível, afirmou.

Esse comportamento mais cauteloso dos consumidores é típico de recessões que ocorrem depois de expansão significativa do crédito, observa Borges, como a que a economia brasileira atravessa desde o segundo trimestre de 2014. Atualmente em 48,7% (dado de janeiro), a participação do crédito no PIB era de 53,2% em igual mês de 2016, de acordo com o BC. Já o nível de endividamento das famílias em relação à renda anual caiu 2,35 pontos percentuais entre dezembro de 2015 e de 2016 (último dado disponível), para 42,2%.

Para Borges, o descolamento do consumo em relação à renda, estimado em cerca de dois pontos percentuais, pode ser um vetor de impulso da demanda ao longo deste ano. Esse “espaço” pode ser preenchido rapidamente por mais consumo, diz, caso as condições monetárias e a confiança do consumidor permitam. Em seus cálculos, o consumo vai crescer 0,5% em 2017.

Nas estimativas da Tendências Consultoria, a massa total de renda real – incluindo rendimentos do trabalho, da Previdência e do programa Bolsa Família – teve redução parecida no ano passado, de 3%. Entre todos os componentes, o único que deve ter registrado alta, descontando a inflação, é a renda proveniente de aposentadorias, com expansão projetada de 4,6%.

Para Rafael Bacciotti, da Tendências, os consumidores reduziram seu nível de compras em ritmo mais forte do que a queda da renda disponível devido principalmente ao medo do desemprego, que aumentou bastante nos últimos dois anos. “A cautela explica o ajuste maior no consumo do que na renda”, disse. Mesmo trabalhadores que não perderam sua fonte de renda e acesso ao crédito postergaram decisões de consumo, diz Rodolfo Margato, do Santander.

Além da percepção de piora do mercado de trabalho, Rafael Gonçalves Cardoso, do Daycoval Investimentos, aponta que o lento processo de desalavancagem das famílias – que ainda está em curso – é outro fator por trás da queda mais forte do consumo do que da massa de rendimentos. “Parte da massa salarial foi destinada ao pagamento de dívidas.”

Como os consumidores continuam com endividamento relativamente elevado, a necessidade de seguir reduzindo o peso de financiamentos no orçamento não deve permitir que o consumo volte a caminhar acima da massa de renda real em 2017, comenta Cardoso. O crédito, em sua visão, também não deve alavancar o consumo, mesmo em meio à flexibilização dos juros, porque o juro real permanece em patamar restritivo.

O cenário para o mercado de trabalho também ainda é desfavorável para este ano, o que não permite reação forte do consumo, enquanto a massa total de renda deve diminuir 0,7% em 2017, estima Bacciotti, da Tendências.

O consumo das famílias deve recuar menos – 0,3% no período – o que, em termos dessazonalizados, resultaria em alta média de 0,1% por trimestre, após retração de 0,7% em igual medida observada no ano passado. Para Bacciotti, a inflação menor pode gerar recomposição do poder de compra, assim como a redução dos juros, que tende a dar fôlego extra ao consumo a partir do segundo semestre.

Também um pouco menos pessimista em relação à demanda das famílias, Margato, do Santander, trabalha com ligeiro aumento deste componente do PIB para o ano, de 0,3%. O economista destaca que já está havendo alguma recuperação da renda nos últimos meses, como resultado da queda da inflação. “Os rendimentos devem ser um alívio nesse sentido”, disse.

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