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Desemprego e dívidas, entraves ao consumo é o título de matéria no Globo

Gastos das famílias acumulam queda de 9,6% em dois anos. Analistas não descartam outro recuo em 2017

O aprofundamento do desemprego, que segundo analistas atingirá 13% da força de trabalho este ano, vai dificultar a retomada do consumo pelas famílias e da demanda por serviços em 2017. Economistas ouvidos pelo GLOBO não descartam um terceiro ano de queda para esses dois componentes do PIB, que respondem — um pela ótica da demanda, e outro, pela da oferta — por cerca de dois terços do resultado geral do índice. Em 2016, a contração do consumo das famílias se aprofundou. Caiu 4,3% em relação a 2015, quando encolheu 3,9%. Nesses dois anos, a queda acumulada atinge 9,6%. O recuo do setor de serviços, de 2,7% (mesmo patamar de 2015), chega, em dois anos, a 6,5%.

— Você tem o desemprego ainda em escalada, e o comprometimento de renda das famílias continua elevado. Sem dinheiro para consumir, também sofrem os serviços, que englobam o varejo. Muito provavelmente são dois indicadores que vão andar de lado em 2017 — analisa Guilherme Attuy, economista da XP Investimentos.

Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, qualquer melhora na renda em 2017 será usada para pagamento de dívidas:

— Temos inflação e juros em queda. Mas o medo do desemprego traz incerteza às famílias com relação a sua saúde financeira. As pessoas não vão voltar a fazer altas compras, até porque muitos bens duráveis têm uma durabilidade grande e vivemos um boom de venda desses produtos em 2011 e 2012.


RENDA DO TRABALHO VOLTA A CRESCER


Pesquisa recente divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que o percentual de famílias endividadas voltou a subir em fevereiro, depois de quatro meses de quedas consecutivas, alcançando 56,2% — alta de 0,6 ponto percentual frente ao mês anterior. A parcela de famílias a dizerem que não terão como pagar as dívidas e que permanecerão inadimplentes também aumentou. Passou de 8,6% em fevereiro de 2016 para 9,8% no mês passado. Este é o maior patamar do indicador desde janeiro de 2010, quando foi de 10,2%.

— O consumo das famílias não ficar negativo novamente em 2017 é uma hipótese heroica — diz Gonçalves.

A mudança no comportamento do casal Gabriela Bremer, de 22 anos, e Felipe Nunes, de 24, é um espelho desses dados. Gabriela é professora por formação, mas, devido à falta de emprego em sua área, atualmente trabalha como atendente em um restaurante no Centro do Rio:

— Está muito difícil. Hoje pude comprar iogurte porque estava na promoção, mas, no dia a dia, eu o cortei da minha lista, junto com o queijo, que também está muito caro.

Ela e o noivo decidiram morar com os pais dela para economizar no aluguel.

— Depois de casar, vamos procurar um lugar barato. Mas, se não encontrarmos, vamos continuar morando com eles. Também optamos por comprar um ventilador que estava na promoção em vez de um ar-condicionado, além de ter cancelado a conta do meu celular — conta Felipe, que é auxiliar administrativo.

Quando a lista de compras não pode mais ser modificada, o jeito é buscar promoções e pesquisar preços em diferentes mercados.

— Eu moro em frente a um supermercado, mas não posso comprar tudo aqui porque os preços são absurdos — reclama a pensionista do INSS Vera Rosa Pinto, de 59 anos.

Para Felipe Salles, economista do Itaú Unibanco, o consumo das famílias deve demorar a reagir:

— Vai demorar um pouco. A reação mais forte só deve ocorrer no fim deste ano ou em 2018. Não há reação no radar nos próximos seis meses.

Um alívio nesse cenário é comportamento da renda do trabalhador. Segundo projeções de Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, os ganhos no mercado de trabalho devem crescer:

— Mesmo o mercado de trabalho aponta sinais de melhora. A renda real voltou a crescer no fim de 2016 e tende a chegar ao fim do ano com expansão real na casa dos 2%.

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, destaca que medidas como a liberação das contas do FGTS, uma das apostas do governo Temer para reativar o consumo, terão efeito limitado:

— Vai chegar antes ao devedor e, depois, ao consumidor. Se você olha os componentes da demanda, o consumo das famílias vai continuar baixo por conta desse desemprego brutal.

Agropecuária tem maior queda em duas décadas

Setor encolhe 6,6% em 2016, mas deve liderar retomada este ano

RIO E SÃO PAULO- Setor que deve liderar a expansão do PIB em 2017, a agropecuária não escapou da recessão do ano passado. A produção no campo teve queda de 6,6% — o pior resultado entre os grandes setores, num tombo maior até mesmo que os da indústria (-3,8%) e dos serviços (-2,7%) — devido à quebra de safra em meio ao clima desfavorável provocado pelo fenômeno El Niño. Foi o pior resultado do setor no PIB das últimas duas décadas.

O resultado foi influenciado por um desempenho ruim nas principais culturas do país. A safra do milho registrou queda de 25,7%, enquanto a de cana-de-açúcar encolheu 2,7%. Já a soja teve resultado negativo de 1,8%. Juntos, esses três produtos têm peso de 60% sobre toda a produção brasileira.


SUPERSAFRA NO CAMPO


No último trimestre de 2016, porém, a agropecuária já iniciou a recuperação que, segundo analistas, deve se consolidar este ano. A expansão do setor entre outubro e dezembro foi de 1%, frente ao trimestre imediatamente anterior. Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o setor terá crescimento de 7,7% este ano:

— A supersafra prevista para este ano é um prenúncio dos bons números que a economia deve apresentar.

A agropecuária tem peso de apenas 5% no PIB, mas, considerando seus efeitos na cadeia produtiva de outros setores, como máquinas e equipamentos agrícolas, o campo responde por 22% da geração de riqueza no país, estimam especialistas.

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