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Para analistas, PIB caiu 0,6% no 4º tri, menos que no anterior é o título de matéria no Valor

Com resultados ainda negativos em praticamente todos os componentes, o Produto Interno Bruto (PIB) do país encerrou o último trimestre de 2016 com queda de 0,6% sobre os três meses imediatamente anteriores, feito o ajuste sazonal, de acordo com a média de 23 estimativas colhidas pelo Valor Data com consultorias e instituições financeiras. A retração é ligeiramente menor que a observada entre julho e setembro, de 0,8%, na mesma comparação.

As projeções para o dado que será divulgado amanhã pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) variam de recuo de 0,4% a contração de 0,9%. No ano, a economia deve ter encolhido 3,5%, após cair 3,8% em 2015. Para os primeiros três meses de 2017, a média de 15 projeções indica alta de 0,2% para o PIB, a primeira após oito trimestres consecutivos de queda. A avaliação de que a atividade inverterá o sinal já neste início de ano, porém, não é consenso: há duas estimativas negativas e duas que preveem estabilidade.

Do lado da oferta, os principais responsáveis pela retração do PIB no quarto trimestre de 2016 serão a indústria e os serviços, para os quais se espera contração de 0,7% e de 0,6%, nessa ordem, no confronto com o trimestre encerrado em setembro. O primeiro setor, impulsionado pelas exportações de veículos especialmente em novembro e dezembro, apresentará desempenho ligeiramente melhor do que o observado de julho a setembro, quando caiu 1,3%. Os serviços, que sofrem os efeitos negativos defasados do desemprego e da menor disponibilidade de renda, ainda devem recuar na mesma magnitude do terceiro trimestre.

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida das Contas Nacionais do que se investe em máquinas, na construção e em pesquisa, será o principal impacto negativo vindo da demanda, com retração média de 3,2%, tombo semelhante ao observado de julho a setembro, também na série com ajuste sazonal. Depois de encolher 0,6% nesse período, o consumo das famílias diminuiu 0,5% nos três últimos meses de 2016, como sinaliza a média de projeções.

Apesar dos números ainda bastante negativos, a retração mais branda do PIB na comparação com o mesmo período do ano anterior reforça a avaliação de que o país segue a trajetória, ainda que lenta, de superação da crise, diz o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. De outubro a dezembro, a média de estimativas indica queda de 2,4%, a menor nesse confronto desde o segundo trimestre de 2015. De janeiro a março, o PIB recuou 5,4% em relação a igual intervalo do ano anterior, 3,6% no segundo trimestre de 2,9% entre julho e setembro.

Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, também avalia que há em curso uma inflexão no ritmo de redução da atividade, mas pondera que a indústria teve desempenho frustrante no quarto trimestre de 2016. Em seus cálculos, o PIB caiu 0,4% em relação ao terceiro trimestre, com tombo de 0,9% no setor industrial. “A saída da recessão será mais lenta”, diz.

Com peso de mais de 70% no valor adicionado, os serviços são outro componente do PIB que corroboram o cenário de retomada gradual, acrescenta Bacciotti, devido à contínua deterioração do mercado de trabalho. Para os últimos três meses do ano, ele trabalha com queda de 0,5% para esse segmento.

Pela ótica da demanda, a expectativa é de desempenho fraco generalizado no fechamento do ano passado. O destaque negativo, mais uma vez, deve ter partido dos investimentos, afirma Luis Otávio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, que projeta retração de 0,6% do PIB total e de 3,5% dos investimentos no último trimestre do ano passado.

Segundo Leal, a enorme capacidade ociosa na indústria e o início mais tardio do ciclo de corte de juros, que só começou em outubro do ano passado, fizeram com que os investimentos demorassem muito a reagir neste ciclo recessivo, retardando a recuperação da atividade.

Para o economista, porém, a queda acumulada pela formação de capital fixo nesta crise, que supera 30%, significa que o país não investiu o suficiente nem para compensar a depreciação de máquinas. É por isso, diz, que em 2017 a expectativa é de moderado avanço dos investimentos, de 2%, resultado de reposição e manutenção de equipamentos que não foram feitos na fase mais aguda da crise.

Para Leal, sem nenhum impulso da demanda interna, o PIB do quarto trimestre também foi muito fraco por causa da valorização do câmbio, que levou as exportações a recuarem 2,5%, nos seus cálculos. “Isso ajudou a puxar o PIB para baixo”, comenta.

Bacciotti, da Tendências, também avalia que o setor externo teve impacto negativo no PIB nos últimos três meses de 2016. Nas projeções da Tendências, as exportações de bens e serviços diminuíram 1,4% de outubro a dezembro, enquanto as importações subiram 0,3%. Para o economista, a apreciação do câmbio afetou negativamente o volume de vendas externas, mas, daqui para frente, o setor externo dar contribuição moderada à atividade.

Neste primeiro trimestre, diz Vale, da MB, o cenário de recuperação que marcará 2017 deve ficar mais claro. A indústria será beneficiada pela herança estatística positiva da alta forte da produção em dezembro, de 2,3% sobre novembro. “Mesmo que a produção fique estável no primeiro trimestre, o número será positivo”, pondera Vale. A economia também será beneficiada pela forte safra esperada para o ano, com efeitos preponderantes no primeiro semestre.

Apesar de representar apenas 5% do produto na metodologia das Contas Nacionais, diz o economista da MB, o peso total da cadeia do agronegócio chega a quase um quarto do produto. Assim, ele calcula alta de 0,9% para o PIB entre janeiro e março de 2017, a projeção mais otimista da coleta. A estimativa para o último trimestre de 2016 é de uma queda de 0,5%.

Nas contas do ABC Brasil, o setor agrícola deve ter um resultado muito expressivo no primeiro trimestre, com uma alta de 10% a 15% na comparação com o quarto trimestre de 2016, na série com ajuste sazonal, estima Leal, o que deve ser crucial para interromper os oito trimestres consecutivos de queda do PIB.

Para o economista do ABC, a recuperação ao longo de 2017 será bastante modesta, especialmente porque o consumo deve demorar a dar sinais mais positivos, dado o desemprego elevado e o alto nível de endividamento das famílias. Sem essa alavanca, que representa mais de 60% do PIB, e com um carregamento estatístico muito negativo deixado por 2016 – de cerca de 1% -, Leal acredita que será muito difícil que o crescimento deste ano fique perto de 1%. Sua estimativa, por enquanto, é de alta de 0,4% para 2017.

Já Vale, da MB, está mais otimista. Para ele, a aceleração no ciclo de corte dos juros básicos da economia impulsionará a atividade no segundo semestre. “Empresas e consumidores terão mais espaço para fazer uma renegociação mais crível de suas dívidas”, pontua Vale.

O consumo ainda será prejudicado pelo aumento do desemprego, afirma, será aliviado pela moderação da inflação, pela expectativa de elevação da renda média real – algo entre 2% e 3%, calcula o economista – e pelo aumento da confiança.

O principal risco para o crescimento da economia em 2017, na avaliação de Vale, é a não aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287, a reforma previdenciária. “Sem ela, o cumprimento do teto [de gastos, aprovado em dezembro] fica inviável. O mercado reagiria negativamente, o câmbio depreciaria, dificultando um corte maior de juros pelo Banco Central”, pondera.

Nesse cenário, o governo teria de elevar impostos para fechar as contas, contratando nova recessão para 2018 e aumentando as chances de eleição, no pleito presidencial, de candidatos com discurso extremista.

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