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Oito segmentos da indústria encolheram mais de 50% em 3 anos, diz o Valor

Nos últimos três anos, durante a mais brutal e longa recessão do Brasil, quando o Produto Interno Bruto (PIB) recuou quase 8% e a produção industrial encolheu 17%, um terço da indústria amargou uma crise ainda pior.

Ela foi fulminante (retração entre 50% e 66%) para oito segmentos e grave (retração entre 25% e 49%) para outros 25 subsetores, segundo definições estabelecidas em um estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que tomou como base nos dados de produção industrial no país do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A queda no investimento – público e privado – é o principal fio condutor da forte queda da indústria, diz Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi, ainda que alguns setores com crise “fulminante” ou “grave” também tenham sido afetados pela retração em bens de consumo duráveis. O destaque negativo são cabines e carrocerias para veículos automotores e caminhões e ônibus, ambos com queda na casa de 60% entre 2014 e 2016.

O investimento foi afetado tanto pelo ajuste fiscal do setor público como pela aversão ao risco, que restringiu o volume de crédito disponível para o setor privado, além dos efeitos diretos e indiretos da operação Lava-Jato sobre a economia brasileira e o setor de infraestrutura. E junto com essas causas reais, a crise foi potencializada pela piora na confiança de empresários e consumidores, pondera Cagnin.

Se nas empresas essa situação levou ao corte do investimento, nas famílias ela afetou principalmente o consumo de bens duráveis. Com a renda comprometida e diante do desemprego (ou com medo dele), os consumidores pisaram forte no freio da demanda, acrescenta o economista do Iedi, ponderando que nos dois casos – das empresas e das famílias – ainda não há sinais objetivos que permitam reverter a situação e falar em retomada sustentada.

“Esses são segmentos muito ancorados no mercado doméstico e não é fácil redirecionar a produção para o exterior”, pondera, lembrando que a situação das contas públicas ainda constrangerá o investimento público por bastante tempo.

O levantamento do Iedi também olhou para o último trimestre de 2016 e constatou uma situação muito diversa na indústria: se um quarto dos setores já cresceu mais de 5% em relação ao último trimestre de 2015, a produção de outro quarto ainda caiu 10% ou mais na mesma comparação. “Estamos no início de uma recuperação que será muito lenta. O que será crescer 5% para um setor que encolheu 60%?”, questiona Cagnin.

O trabalho do Iedi mostra que nos setores mais ligados ao consumo do dia a dia das famílias (alimentos, limpeza, higiene), a retração foi muito menos intensa. Em seis setores, houve, inclusive, crescimento no acumulado de 2014 a 2016. “Mas são segmentos ligados à alimentação ou exportação”, explica o economista, listando celulose, café e açúcar, entre outros.

Como o investimento e o consumo movido a crédito puxaram a derrocada da indústria, reverter as fortes quedas acumuladas nos últimos três anos, não será fácil. “Faltam elementos dinamizadores para a indústria”, diz Cagnin, relacionando a queda dos juros como um fator inicial, ainda insuficiente. Faltam crédito, confiança, redução do desemprego, projetos públicos de infraestrutura, rodadas de concessões, entre outros.

“As novas rodadas de concessões só devem acontecer no segundo semestre. E depois que elas acontecem, demoram mais um semestre, no mínimo, para começar a gerar pedidos para indústria”, acrescenta.

Além da ausência de elementos dinamizadores no mercado doméstico, o alento que poderia vir do mercado externo (que já ajudou alguns setores em 2016), pode ser comprometido pela recente valorização do real, pondera Cagnon. “Para algumas empresas, o risco é que a exportação, após um gigantesco esforço para recuperação de mercados, agora vire prejuízo”, diz ele.

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