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Jorge Picciani se torna esteio de Pezão no Rio, diz a Folha

Depois de fazer duras críticas ao governador Luiz Fernando Pezão, chegando a indicar possíveis interventores para tirar o Rio do buraco, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio e líder do PMDB local, Jorge Picciani, se tornou o principal suporte do governo fluminense em 2017.

Eleito em janeiro para seu sexto mandato como presidente da Alerj, Picciani assumiu a articulação política para a votação das medidas anticrise exigidas como contrapartida para o socorro do governo federal e tem nas mãos o poder de decidir pela abertura ou não de um dos processos de impeachment de Pezão protocolados na Casa.

Nos bastidores, é chamado como “governador de fato” do Estado, diante do enfraquecimento de Pezão, cujo governo fechou 2016 com um deficit fiscal de R$ 9,8 bilhões e não vem conseguindo pagar salários nem fornecedores.

“O Pezão está nas mãos dele e a aprovação da privatização da Cedae [aprovada em fevereiro] foi uma prova disso”, comenta o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). “Foi o maior escândalo da história da Alerj”, completa.

A medida, que pode garantir ao Estado um empréstimo de R$ 3,5 bilhões com bancos federais para pagar salários atrasados, foi aprovada por 41 dos 70 deputados, após a distribuição de cargos no governo para aliados na Alerj.

O deputado Pedro Fernandes (PMDB), por exemplo, virou secretário de Assistência Social. Thiago Pampolha (PDT) foi nomeado secretário de Esporte e Lazer. E Jair Bittencourt (PP) assumiu a pasta da Agricultura. Nos três casos, os suplentes votaram com o governo pela privatização da companhia.

Picciani minimiza sua influência na articulação da base. Para ele, o apoio é resultado de mudanças no próprio governo Pezão, que “colocou os jogadores nos lugares certos”. “O Pezão aprendeu a ouvir”.

Além de articular as nomeações, o presidente da Alerj foi acusado pela oposição de usar o regimento da Casa para limitar a discussão sobre emendas ao projeto. Os debates e a aprovação foram concluídos em apenas dois dias.

O apoio ao governo em 2017, porém, contrasta com as críticas feitas durante o ano de 2016. Em dezembro, Picciani cedeu à pressão popular, com protestos pela cidade, e devolveu ao Executivo a maior parte das medidas do primeiro pacote anticrise elaborado pelo governo Pezão.

“Falta governo, não tem nenhuma coordenação no governo”, afirmou à época.

“O que tem que ocorrer é o governador Pezão colocar alguém para tocar a máquina, porque ele não é bom nisso”, atacou, sugerindo os nomes de Pedro Parente, presidente da Petrobras, ou do ex-prefeito Eduardo Paes (PMDB).

Quando questionado sobre o apoio às medidas apresentadas este ano, tem repetido que trata-se de “uma questão de Estado, não de governo”.

Segundo opositores, Picciani costuma enfraquecer seus aliados no Executivo como forma de sair na frente na disputa política e conseguir, mais adiante, obter vantagem nas discussões.

“Quanto mais fraco for o interlocutor, melhor para o Picciani, porque ele cresce na fraqueza não só dos adversários, mas também dos aliados”, diz o ex-governador Anthony Garotinho (PR). “Ele enfraqueceu o Pezão o quanto pôde e o transformou em refém.”

INVESTIGAÇÕES

Nas ruas, é citado ao lado de Pezão em protestos de servidores, que pedem a saída dos dois. “Ô Picciani, pode esperar, a sua hora vai chegar”, foi uma das palavras de ordem dos manifestantes contrários ao governo, em referência às investigações da Operação Lava Jato.

Investigado pela Procuradoria Geral de Justiça por enriquecimento ilícito na venda de gado, o que ele nega, o deputado não é alvo de inquéritos na Lava Jato.

Mas uma empresa de seu filho, Leonardo Picciani, que ocupa o Ministério dos Esportes, entrou na mira de relatório de inteligência financeira feito por órgão de controle da Fazenda para a Lava Jato, ao ser vendida para o Grupo Petrópolis, que fabrica a cerveja Itaipava e é acusada por delatores de fazer parte do esquema de corrupção.

Em defesa do filho, o presidente da Alerj disse que a operação foi legal.

Jorge Picciani nunca ocupou cargo federal. Em 2010, tentou uma vaga no Senado mas foi derrotado. Ainda assim, tem mantido influência em Brasília pelo controle que exerce sobre a bancada do PMDB fluminense.

Em março de 2016, ajudou a dar impulso ao impeachment de Dilma Rousseff ao anunciar o desembarque de seus aliados do governo.

Seu filho Leonardo era líder do PMDB na Câmara, que era presidida por outro cacique do partido no Rio, Eduardo Cunha, hoje preso.

Agora, embora o cenário estadual também envolva denúncias de corrupção e insatisfação popular, diz que não é momento para falar em impedimento de Pezão, alegando que a solução para o pagamento dos salários deve ser a prioridade.

“Não é uma solução. Qualquer um que assumir terá as mesmas dificuldades”, disse à Folha. “A única alternativa à aprovação de medidas de austeridade é a intervenção federal”.

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