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Expansão global já ajuda o Brasil via commodities é a manchete do Valor

Alta de matérias-primas já beneficia economia

A alta significativa dos preços de commodities nos últimos meses tem produzido efeitos importantes sobre a economia brasileira, refletindo-se especialmente no aumento do saldo comercial e na valorização do câmbio, além de engordar a arrecadação. As vendas externas de minério de ferro e petróleo cresceram com força nos dois primeiros meses do ano e o dólar tem sido negociado na casa de R$ 3,10. A receita de janeiro, por sua vez, teve o impacto favorável do aumento dos royalties do petróleo.

Nos 12 meses até fevereiro, o índice de termos de troca (a relação entre preços de exportação e de importação) subiu 8,2%. Para comparar, a alta registrada na média de 2016 foi de 3%, mostrando a aceleração da alta do indicador no começo deste ano.

O melhor desempenho da economia global tem impulsionado as commodities, em especial das metálicas. As perspectivas para o crescimento dos EUA, da zona do euro e da China são mais favoráveis, alimentando a alta das cotações das matérias-primas. Há um movimento sincronizado de expansão mais forte de várias economias de peso, como diz o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira.

A valorização atual das commodities, contudo, é diferente da registrado na década passada, na visão de analistas como Andrea Bastos Damico, economista do Bradesco. Ela nota que o ciclo de alta dos últimos meses é concentrado em menos produtos, além de a magnitude ser mais modesta. Para Oliveira, o grosso do movimento de valorização das commodities já ocorreu. Os preços não tenderiam a seguir em alta, podendo haver uma estabilização nos atuais níveis ou mesmo uma pequena correção para baixa, avalia ele.

O economista Mauro Schneider, da MCM Consultores, vê a valorização atual das matérias-primas mais como uma correção das fortes quedas ocorridas nos últimos anos, e não como um novo boom. Para ele, é possível que, nesse cenário, os termos de troca brasileiros flutuem entre o nível atual e algo um pouco acima disso. Não parece provável que o ritmo de alta dos últimos meses se mantenha.

Uma diferença é que, embora as perspectivas para economias como os EUA e a China estejam melhores, elas ainda estão longe do desempenho registrado em boa parte da década passada.

Para Andrea, do Bradesco, os termos de troca brasileiros devem ter alta um pouco inferior a 7,5% neste ano. Nas suas contas, haverá uma queda do indicador no segundo semestre. As cotações do minério de ferro, por exemplo, tendem a não se sustentar, avalia ela. Mas, se o nível dos termos de troca de fevereiro se mantiver até o fim de ano, o aumento em 2017 será de 11%, segundo Andrea. No começo de 2016, a tonelada do minério de ferro era negociada um pouco acima de US$ 40; neste ano, tem sido vendida por mais de US$ 90.

Um dos reflexos mais claros da melhora da relação entre preços de exportação e de importação é a valorização do câmbio, segundo analistas. Para Oliveira, a melhora dos termos de troca tem um peso maior no recente fortalecimento do real, que também se deve à queda do risco-país, devido a fatores como a aprovação do projeto do teto de gastos da União, a perspectiva de aprovação da reforma da Previdência e a expectativa do fim da recessão e volta do crescimento. Nesse quadro, o economista do Fibra estima que o dólar deverá ficar no intervalo entre R$ 2,90 e R$ 3,20 nos próximos meses. Schneider, que estima um câmbio de R$ 3,25 na média do ano, pode revisar para baixo a projeção.

Os saldos comerciais mais robustos também são reflexo da melhora dos termos de troca. Oliveira projeta hoje um superávit de US$ 47,5 bilhões neste ano, apenas um pouco inferior aos US$ 47,7 bilhões do ano passado. No entanto, com as perspectivas mais favoráveis para os preços e os volumes a serem exportados em 2017, ele diz que a projeção tem viés de alta.

Andrea revisou recentemente a estimativa para o saldo comercial de US$ 50 bilhões para US$ 51 bilhões, incorporando na projeção preços melhores e uma safra também melhor. Já a mudança na previsão para o câmbio, de R$ 3,45 para R$ 3,30 no fim do ano, joga contra um superávit maior.

Um outro efeito da alta dos commodities começou a ser sentido na arrecadação. Segundo números do Tesouro, a receita com a cota-parte das compensações financeiras atingiu R$ 5,5 bilhões em janeiro, 57% a mais do que no mesmo mês do ano passado, descontada a inflação, “devido principalmente ao aumento na produção e no preço internacional do petróleo”. O efeito pode não ser dos maiores sobre a arrecadação total, mas ajuda a elevar a receita num momento em que o caixa do governo ainda sofre com a fraqueza da atividade econômica.

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