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Commodities sobem e levam balança a saldo de US$ 4,5 bi, recorde no mês, diz o Valor

A balança comercial brasileira teve superávit de US$ 4,56 bilhões em fevereiro. O valor, que é recorde para o mês, é resultado de exportações de US$ 15,472 bilhões e de importações de US$ 10,912 bilhões no mês passado. As vendas externas tiveram alta de 22,4% na comparação com fevereiro de 2016, e as compras, alta de 11,8% sobre o mesmo período, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

No ano, a balança tem superávit acumulado de US$ 7,285 bilhões, também o melhor resultado para o período desde o início da série histórica. No primeiro bimestre de 2016 o saldo positivo foi de US$ 3,958 bilhões.

O superávit de fevereiro veio bem acima da expectativa, segundo a Rosenberg Associados, que projetava saldo positivo de US$ 3,2 bilhões para o mês. A surpresa maior, diz a consultoria em boletim, ficou por conta da forte alta das exportações disseminada em todos os subgrupos, com destaque para a forte alta em básicos.

O “miniboom” de commodities já tem reflexos positivos na balança. As vendas de produtos básicos registraram crescimento de 38,1% no primeiro bimestre, ante igual período do ano passado. O embarque de manufaturados subiu 5,3% no mesmo período, embora itens como automóveis de passageiros tenha crescido 30,1%.

No caso dos básico, a alta das cotações internacionais foi determinante. Houve aumento de 131% nos preços de exportação do minério de ferro, de 75% do petróleo em bruto, de 19% do café em grão e de 12% da soja em grão. No caso do minério e do café, houve queda dos volumes embarcados nos dois primeiros meses do ano, mas a recuperação dos preços mais do que compensou o movimento.

Os dois produtos tiveram, respectivamente, aumento de 124,5% e de 7,5% nas exportações devido à alta de preços. Para a soja e o petróleo em bruto, houve combinação de preços melhores e volumes maiores. Com isso, o aumento das exportações foi de 99,9% e de 182,5% sobre o primeiro bimestre de 2016, respectivamente.

O desempenho dos preços contribuiu para elevar a fatia do minério de ferro e do petróleo na exportação total de 10,9% no primeiro bimestre de 2016 para 22,8% em igual período deste ano. Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a contribuição positiva das duas commodities deve continuar por alguns meses.

No caso do minério de ferro, o volume embarcado deve ficar estável em relação ao ano passado, mas os preços devem continuar em nível parecido ao atual até março. A partir de abril, os preços tendem a cair, diz ele, mas vai evoluir conforme a estratégia de compra do minério pela China.

Já o petróleo, avalia Castro, deve manter preços mais estáveis em relação ao atual, com alta em relação ao ano passado e volumes crescentes de quantidade embarcada nos próximos meses, por conta do aumento da produção nacional.

Graças ao impulso dado pelas commodities, a China tornou-se o maior mercado para as exportações brasileiras no primeiro bimestre. O país asiático tomou o lugar da União Europeia como principal destino dos produtos brasileiros. O desempenho de exportações fez também mudar o sinal do saldo no comércio com as duas regiões. O déficit de US$ 75 milhões no primeiro bimestre com o bloco europeu no ano passado deu lugar a superávit de US$ 440 milhões nos dois primeiros meses deste ano. Nas trocas com a China, o déficit de US$ 490 milhões transformou-se em saldo positivo de US$ 2,37 bilhões no mesmo período.

“Há uma “recomposição parcial” nos preços das commodities, especialmente minerais, mas esse movimento se dá em cima de uma base de comparação muito fraca, avalia o secretário de Comércio Exterior, Abrão Neto. Diz que as cotações de diversos produtos haviam atingido o menor patamar em mais de uma década no primeiro bimestre de 2016.

O secretário lembrou que o petróleo estava com seus preços mais baixos desde 2004, o minério de ferro desde 2005 e a soja em grão desde 2007. Nos dois primeiros meses de 2017, as exportações tiveram aumento de 21,5% em preço e queda de 0,9% em volume ante igual período do ano passado, segundo o Mdic.

“De qualquer forma, o preço atual de 2017 ainda está no patamar de 2015, que não é o ápice de cotação nos últimos anos”, afirma o secretário. Ele avalia que a recuperação de preços do petróleo parece ter mais “consistência”, devido ao acordo entre os países produtores integrantes da Opep, mas acredita que ainda é preciso acompanhar com atenção a evolução das cotações do minério de ferro.

Do lado das importações, fevereiro marcou a alta consecutiva de desembarques por três meses consecutivos, algo que não acontecia desde meados de 2013. O desempenho é interpretado pelo governo como novo sinal de retomada do crescimento econômico.

Abrão Neto lembra que as importações vinham em queda contínua desde setembro de 2014 e só registraram sua primeira alta na comparação anual em dezembro do ano passado. Em fevereiro, isoladamente, houve crescimento de 11,8% pela média diária com aumento de 9,2% nos volumes comprados e de apenas 0,1% nos preços. “É um indício forte de reaquecimento da economia brasileira”, diz.

Segundo o boletim da Rosenberg, a incipiente recuperação das importações em fevereiro é um bom sinal de que a atividade doméstica pode estar em um melhor patamar que o primeiro bimestre de 2016. A consultoria ressalta a mudança na dinâmica de formação do superávit comercial. Ao contrário do ano passado, diz a Rosenberg, quando os saldos comerciais eram compostos por forte retração das importações e queda menos intensa das exportações, neste ano, os saldos comerciais são reflexo de forte crescimento das exportações e aumento mais comedido das importações. Para a consultoria, a apreciação cambial dos últimos meses também atua no sentido de aumentar as importações.

Castro, da AEB, também credita a evolução das importações à baixa base de comparação e ao efeito favorável do câmbio para os desembarques. Ele lembra que a alta na importação de intermediários foi puxada por insumos industriais elaborados, peças e acessórios para bens de capital e peças para equipamentos de transporte. O crescimento desses itens indica, diz ele, que a indústria tem importado itens favorecidos pelo real valorizado e de forma mais voltada à manutenção da produção.

Abrão Neto descartou, porém, o fortalecimento do real como principal razão para o movimento das importações. “O câmbio é sempre um fator importante no comércio exterior, mas demora um tempo para se refletir”. Segundo ele, quando há valorização cambial, o primeiro efeito costuma ser sentido no aumento dos bens de consumo importados. Não é isso, entretanto, diz, o que tem acontecido. O maior crescimento das importações, no primeiro bimestre, veio de bens intermediários e de combustíveis com alta de 19,5% e de 11,5% sobre igual período do ano passado. Na mesma comparação, houve queda de 28,5% nas compras de bens de capital e de 1,5% dos bens de consumo.

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