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Lava Jato apura propina a senadores do PMDB, diz o Estadão

A força-tarefa da Lava Jato deflagrou ontem mais uma fase da operação, batizada de Blackout, para apurar o pagamento de cerca de US$ 40 milhões em propina a ex-diretores da Petrobrás e senadores do PMDB. De acordo com os investigadores, parte do dinheiro foi transferida a parlamentares por meio de contas na Suíça e também nas ilhas caribenhas de Bahamas.

O principal alvo da operação de ontem, a primeira da forçatarefa no ano, foram dois supostos operadores ligados ao PMDB, Jorge Luz e seu filho, Bruno Luz. Foram expedidos mandados de prisão preventiva contra os dois, mas, segundo a defesa dos lobistas, eles estão nos Estados Unidos e retornarão “o mais breve possível” (mais informações nesta página).

Pai e filho são considerados foragidos e foram incluídos na lista vermelha da Interpol. Segundo os investigadores, Jorge e Bruno Luz atuaram em pelo menos cinco contratos da Petrobrás, como na compra de navios-sonda, aluguel de terminais e fornecimento de asfalto.

Jorge, de 73 anos, já havia sido citado como operador de propina em delações premiadas e é tratado por investigadores como “o operador dos operadores”. Segundo a defesa, ele já prestou depoimentos por três vezes no Supremo Tribunal Federal (STF) para esclarecer fatos relacionados à Lava Jato.

O nome de Jorge apareceu em depoimentos do ex-diretor da área internacional da Petrobrás Nestor Cerveró e do lobista Fernando “Baiano” Soares. Os dois afirmaram que Jorge Luz teria atuado no repasse de US$ 6 milhões em propinas para o senador Renan Calheiros (PMDB-AL).

Além de Renan, Baiano também citou entre os políticos com os quais Jorge Luz mantinha contato o senador Jader Barbalho (PMDB-PA), o deputado Aníbal Gomes (PMDBCE) e o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau (PMDB). Já o senador cassado Delcídio Amaral (sem partidoMS), que também fez acordo de delação, afirmou em sua colaboração que Jorge Luz era um dos “principais operadores” do PMDB ao lado de Milton Lyra, lobista que foi alvo de mandado de condução coercitiva em setembro de 2016.

São dois operadores de extrema relevância. Talvez sejam os maiores operadores da área Internacional da Petrobrás, os mais ligados ao PMDB”, afirmou o procurador da República Diogo Castor de Mattos, da força-tarefa da Lava Jato, durante entrevista coletiva na manhã de ontem, em Curitiba.

Contratos. As contas no exterior ligadas a Jorge e Bruno Luz, segundo a Procuradoria, foram abertas em nome de offshores, usadas para pagamentos de propinas, em especial em contratos da área internacional da Petrobrás. Dois deles referem-se à compra e operação dos naviossonda Petrobrás 10.000 e Vitória 10.000. O negócio já é alvo de processos na Justiça Federal contra o ex-diretor de Internacional da estatal Jorge Zelada e contra o deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Ao autorizar a prisão de pai e filho, o juiz federal Sérgio Moro apontou “o caráter serial dos crimes”. “A intermediação reiterada de pagamento de vantagem indevida a diversos agentes públicos, pelo menos dois diretores e dois gerentes da Petrobrás, em pelo menos cinco contratos diferentes da Petrobrás, aliada à duração da prática delitiva por anos e a sofisticação das condutas delitivas, com utilização de contas secretas em nome de offshores no exterior (cinco já identificadas, sendo quatro comprovadamente utilizadas para repasses de propinas), é indicativo de atuação criminal profissional”, disse o magistrado que conduz a Lava Jato na primeira instância.

Exterior. Jorge e Bruno Luz são investigados por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Segundo o delegado da Polícia Federal Filipe Hille Pace, a suspeita é de que eles tenham se mudado para os Estados Unidos para fugir da Justiça brasileira.

Ao que tudo indica, assim como seu filho Bruno Luz, Jorge Antonio da Silva Luz está residindo no exterior para se furtar da aplicação da lei penal brasileira”, afirmou o delegado. “Melhor análise de seus dados migratórios revelam que, desde o início da fase ostensiva da Operação Lava Jato, o investigado viajou previamente ao menos outras dez oportunidades para o Estado da Flórida, nos EUA.”

Bruno Luz tem dupla cidadania. O investigado tem passaporte português e já usou o documento, segundo registro migratório levantado pela forçatarefa da Lava Jato, em duas ocasiões para deixar o Brasil.

Avião. Como medida preventiva, Moro determinou o bloqueio de R$ 50 milhões dos dois investigados e também do empresário Apolo Santana Vieira. O empresário, alvo da operação de ontem, é apontado como um dos donos do jatinho que se acidentou com o então candidato a presidente Eduardo Campos (PSB), em Santos, no litoral paulista, em 2014. Na queda do avião, Campos e mais seis pessoas morreram.

No caso de Apolo Vieira, o juiz da Lava Jato chegou a decretar a prisão preventiva, mas acabou revogando após o Ministério Público Federal pedir a reconsideração da medida alegando que o empresário está negociando um acordo de colaboração premiada.

Atuação como lobista começa na gestão Sarney

Jorge Luz é velho conhecido de políticos e empresários. Apontado como o decano dos negócios suspeitos envolvendo a Petrobrás, é pioneiro do modelo de relacionamento com fornecedores que culminou em um dos maiores escândalos da história recente do País.

Investigações da Lava Jato apontam, desde 2015 – quando foram feitas buscas de documentos da família Luz –, que ele iniciou sua atuação como lobista em 1986, no governo José Sarney. Na época, já se sabia que Jorge Luz viajava frequentemente para Miami com o filho Bruno, onde tem casa e negócios.

Filho de comandante da Marinha nascido no Pará, que mantinha relações com políticos da região, Jorge Luz mudou para o Rio ainda jovem, onde se estudou em colégio militar.

Na década de 1980, ele montou um escritório no Pará, onde se dizia braço direito do então governador Jader Barbalho (PMDB). Mas influência política de Luz não se restringia a seu Estado. Em negócios citados na Lava Jato, ele chegou a fechar contrato entre sua empresas Gea Projetos e a Diretoria de Abastecimento da Petrobrás, então comandada por Paulo Roberto Costa, no valor de R$ 5,2 milhões. Costa disse que só foi mantido diretor, no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, por intermédio de Luz, a pedido do PMDB.

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