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Um mestre da tergiversação é o título de análise no Estadão sobre sabatina

O senhor vai ter de falar nisso”, disse a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) ao ministro licenciado Alexandre de Moraes, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), na terceira hora de sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. “Nisso”, no caso, era uma posição que Moraes defendeu em sua tese de doutorado (USP/2000) – o veto à indicação de ministros ao STF pelo presidente da República.

A questão entrou em pauta já no começo da sabatina, como uma das perguntas do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), relator da indicação de Moraes pelo presidente Michel Temer. Moraes deu o primeiro drible. O segundo foi em Lindbergh Farias (PT-RJ). O terceiro, no senador Lasier Martins (PSD-RS). O quase futuro ministro ignorou a questão específica de três senadores – sua própria proposta de veto presidencial –, e demorou-se em platitudes sobre a tese que defendeu.

Grazziotin seria a quarta a ser fintada – e foi aí, à guisa de “comigo, não!” – que instou Moraes a não escapulir. “É, na verdade, o melhor argumento contra a sua própria indicação”, disse a senadora. Moraes matou no peito (“existem várias propostas sobre a escolha de ministros para o STF…”) – e passou a bola por baixo de sua saia (“não é só uma discussão brasileira…”).

Mais dribles do gênero seriam dados. Até a sexta hora da sabatina, que entrou pela noite, o indicado mostrou-se um mestre da tergiversação – parabéns aos que o treinaram! – e não respondeu à pergunta incômoda. Poderia ter sido levado às cordas, de leve, nas réplicas dos senadores oposicionistas. Mas Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin aceitaram o faz-de-conta-que-eunão-tô-entendendo com tolerância inimaginável. Talvez um subproduto das visitas de cortesia que Moraes fez a todos os senadores antes da sabatina.

Também foram condescendentes, nas réplicas, os oposicionistas Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Não falaram da tese de doutorado, mas de outros pontos incômodos para o ministro licenciado. Rodrigues tratou, por exemplo, da acusação de plágio em um dos livros de Moraes – outra pedra que ele tentava (e conseguia) tirar do calcanhar desde o questionamento do relator, Eduardo Braga.

Moraes chegou a dizer, arrogante e ofensivo, que a reportagem que denunciou o plágio era “maldosa” e que “a viúva do autor (que confirmou a acusação de plágio) foi induzida pelo repórter”. Rodrigues explicou o porquê da pergunta – “para ficar nitidamente esclarecido”, veja bem – e, mesmo com a papelada do plágio nas mãos, nada disse quando a nitidez solicitada mais pareceu um borrão.

Sobrou para a imprensa, também, a culpa de outras acusações a Moraes. “A imprensa inventa, às vezes, o que ela bem entender” e “a imprensa requenta, inventando fatos”, disse, genérica e aleivosamente, como nunca antes se ouviu de candidato a ministro do STF, pelo menos durante as sabatinas.

Na primeiras seis horas, Moraes não teve um único momento de arroubo, ou de irritação, ou de brilho, à exceção do de sua careca reluzente – um contraste plural com o cabelo pintado de acaju do senador Edison Lobão (PMDB-MA) e sua voz cavernosa, sentados lado a lado. “Faz tempo que eu não uso shampoo”, respondeu o calvo candidato a uma brincadeira do senador Armando Monteiro (PTB-PE), ele também já desprovido de fios no topo da cabeça. Na parte séria, Monteiro elogiou a discrição do também careca ministro Teori Zavascki, a quem Moraes pode substituir, e perguntou ao sabatinado o que ele diria sobre ter “um certo gosto pelas luzes”. Moraes respondeu, na mesma toada monocórdica: “Cada pessoa é um estilo. A postura num cargo executivo é diversa num cargo judiciário”.

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