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Eunício tenta se livrar do fantasma de Renan na presidência do Senado é o título de matéria no Globo

Duas semanas após assumir a presidência do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) começa a dar mostras de que pretende impôr um novo estilo de gestão, na tentativa de marcar um distanciamento de seu antecessor, Renan Calheiros (PMDB-AL). Nos últimos dias, Eunício trocou o chefe de gabinete da presidência, emparedou o secretário-geral da Mesa e fez o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), desistir de apresentar uma PEC que restringia a investigação dos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF) enquanto estivessem no mandato.

O senador já havia sinalizado, em entrevista ao GLOBO no início deste mês, que não queria confrontos com outros poderes, mas não indicou que promoveria mudanças internas que, na prática, desmontam a estrutura de poder cultivada por Renan. Na última quinta-feira, Eunício demitiu o então chefe de gabinete da presidência durante o mandato de Renan, Alberto Cascais. No lugar, nomeará Jussanan dos Santos, que chefiava o gabinete da liderança do PMDB enquanto Eunício era líder. Cascais também pode perder o poderoso cargo de advogado-geral do Senado, que acumula com a chefia de gabinete. Eunício pretende nomear alguém “mais afinado” com seu estilo.

Homem forte de Renan e do ex-senador José Sarney, que se revezaram na presidência da Casa nos 13 dos últimos 15 anos, Cascais foi o advogado-geral durante as gestões de ambos os caciques. Em 2008, foi demitido por Garibaldi Alves (PMDB-RN) após dar um parecer que abria uma brecha para o nepotismo na Casa, mesmo depois de o STF aprovar uma súmula proibindo que parentes de senadores e servidores fossem empregados no Senado. Mas, logo que Sarney retornou à presidência da Casa, Cascais foi renomeado. Entre diversos serviços prestados à dupla, o advogado-geral defendeu Renan no STF quando o peemedebista decidiu descumprir decisão que determinou seu afastamento, em dezembro passado.

SERVIDOR EM “FASE DE TESTE”

A permanência do secretário-geral da Mesa, Luiz Fernando Bandeira, também está sob avaliação. Tido como um dos servidores de extrema confiança de Renan, Bandeira está em “fase de teste” pelo novo presidente, que quer ver até que ponto a fidelidade dele se manterá ao ex-chefe. Eunício se queixou a interlocutores de que Bandeira não teria lhe antecipado a situação do pacote anticorrupção, que foi revelada pelo GLOBO e motivou a devolução do projeto à Câmara, conforme havia determinado o ministro Luiz Fux, do Supremo.

Bandeira tem que andar na linha, senão não poderá ficar. Pedi que ele veja todos os esqueletos que estiverem nos armários do Senado, porque não vou ficar apagando incêndio — afirmou a interlocutores.

A ordem é clara. Quando alguém lhe diz que “antes se fazia assim”, Eunício corta:

Esqueça o que ocorreu para trás. O que fez a Mesa anterior não vale para a Mesa atual.

Eunício, que por enquanto foi apenas citado na Lava-Jato, pretende marcar diferenças também com Jucá, que, assim como Renan, é alvo de inquérito nas investigações. A interlocutores, sustenta o discurso de que a “tríade” de caciques, na verdade, não está tão afinada assim.

Eu sou a ovelha desgarrada — tem dito a pessoas próximas.

Eunício afirma ter sido pego de surpresa pela apresentação da PEC de Jucá. Diante da repercussão negativa, vetou a iniciativa e disse ao peemedebista que, se a ideia fosse levada adiante, anunciaria que não daria tramitação ao texto. A aliados, Eunício disse ter sido alvo de “fogo amigo”, já que a iniciativa não teria sido combinada com nenhum dos três presidentes em questão e, por motivos óbvios, geraria uma forte reação negativa.

A melhora da relação com o Supremo também está no horizonte de Eunício como estratégia para se blindar. A ordem agora é respeitar as decisões da Corte e não “peitá-las”, como fez em algumas ocasiões seu antecessor.

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