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No embalo da chalana é o título de reportagem da Veja sobre encontro entre Alexandre de Moraes e senadores

PARA SER CONFIRMADO no cargo, o candidato a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) precisa ser aprovado pelo Senado. É natural, portanto, que se apresente aos parlamentares e exponha suas ideias antes da sabatina de praxe. Assim procedeu Alexandre de Moraes. Um dia depois de ser indicado para o STF, ele foi convidado para um encontro com um grupo de senadores em Brasília. Situação perfeitamente normal — mas, daí em diante, a coisa tomou contornos heterodoxos.

O jantar, que, imaginava o ministro, ocorreria na casa de um dos senadores e em terra firme, deu-se no interior de uma chalana, sobre as águas do Lago Paranoá. Batizada de Champagne, a embarcação é como se fosse um apartamento flutuante de dois andares. Tem uma ampla sala no ls piso e uma suíte no 2°. Seu dono, o senador Wilder Morais (PP-GO), é um empresário milionário e extravagante, que caiu de paraquedas na política. Ele costuma emprestar a chalana a colegas para encontros bastante animados. Durante mais de uma hora, o ministro, oito senadores e um assessor especial do governo Temer navegaram na embarcação — ouviram música, jantaram, beberam algumas taças de vinho e conversaram.

Um pouco menos convencional ainda que a excursão no lago foi o ponto de partida do jantar. Moraes, conforme combinado com os senadores, dirigiu-se inicialmente a uma casa no Lago Sul. Ao chegar ao endereço indicado, foi recebido por um empresário simpático que não conhecia. Era um tal Geovani Meireles. O anfitrião deu-lhe as boas-vindas, mostrou-lhe o casarão e indicou o lugar da reunião — a chalana, atracada no píer da propriedade, bem ao lado de um heliponto. Moraes não sabia, mas estava em companhia bem pouco recomendada. Conhecido como Jarrão, o empresário Geovani Meireles é parceiro de negócios de um doleiro que comandava a filial do banco clandestino de AlbertoYoussef em Brasília. É investigado em dois inquéritos que ligam políticos a propinas e financiamento de campanhas com dinheiro sujo. Jarrão também é amigo do senador Ciro Nogueira, presidente do PP, investigado como um dos grandes beneficiários do esquema de corrupção na Petrobras. Uma empresa de táxi aéreo da qual ele é sócio conseguiu fechar contratos para o transporte de funcionários de plataformas da Petrobras, onde Nogueira e companhia mandavam e desmandavam, até a descoberta do petrolão.

A reunião com os parlamentares foi organizada pelo ex-deputado Sandro Mabel, conterrâneo de Wilder e assessor do presidente Temer. Um dos senadores presentes contou que o grupo tinha duas curiosidades: entender o que o ministro pensava sobre prisões após a condenação em segunda instância e descobrir se teriam acesso ao seu gabinete. “Vocês, quando chegam lá, viram deuses e não querem mais saber de nós”, queixou-se Benedito de Lira, do PP de Alagoas, alvo de inquérito da Lava-Ja-to em curso no mesmo Supremo que Moraes deverá integrar.

No jantar a bordo da chalana Champagne, entre garfadas no fet-tuccine finalizado dentro de uma peça gigante de queijo grana pada-no, o tom inicial das perguntas dos senadores foi de cobrança. Quiseram saber sobre os serviços advo-catícios prestados por Moraes ao ex-deputado Eduardo Cunha e a uma empresa acusada de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Aos poucos, o ambiente foi se desanuviando. Quando o inexperiente senador Cidinho Santos (PR-MT) ensaiou uma sel-fie com Moraes e outros presentes, foi logo advertido por Lira: “Sem fotos, porque podem entender mal esse nosso encontro aqui”. Que pensamento! Da reunião participaram outros políticos controversos, como o senador Ivo Cassol (PP-RO), condenado à prisão pelo Supremo por fraudar licitações.

É provável que Alexandre de Moraes, no embalo da chalana, nem desconfiasse que caíra numa arapuca própria dos perigos de Brasília. O futuro ministro entendeu que o jantar seria na casa de Wilder. “Compareci e fui surpreendido ao saber que a reunião ocorreria em um barco atracado na residência”, afirmou, em nota. Um assessor completou que Moraes também não tinha idéia da fama da embarcação, notória por suas festas do balacobaco. Além disso, a chalana estava irregular e poderia ter sido interceptada pelos agentes da Marinha que fiscalizam a navegação nas águas do Paranoá. Para o futuro ministro da mais alta corte de Justiça do país, é saudável saber onde pisa.

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