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Hora de virar a página é o título de entrevista das páginas amarelas da Veja com Humberto Costa

O SENADOR Humberto Costa (PT-PE) foi ministro da Saúde do governo Lula, esteve no olho do furacão durante a prisão de Delcidio do Amaral, o ex-petista preso tentando obstruir a Lava-Jato, e durante o traumático processo de im-peachment da correligionária Duma Rousseff. Atuou na linha de frente para amparar o que restou do PT e era o líder do partido no Senado até duas semanas atrás. É, portanto, um petista do núcleo duro da legenda — e, também, a primeira voz autorizada a dizer publicamente, como faz nesta entrevista a VEJA, que chegou a hora de o PT admitir que se envolveu em corrupção, pedir desculpas à sociedade pelos erros que cometeu, abandonar o discurso de “denúncia do golpe” e apresentar propostas econômicas para tirar o país do atoleiro. “A autocrítica é necessária, essencial, mas não é suficiente”, afirma.

Seis meses depois de perder o poder, que lição o PT tirou de tudo isso?

Saímos da condição de governo para virar oposição repentinamente. Uma coisa é quando se perde a eleição e se tem tempo para uma autocrítica. Nós saímos com o carro andando. Temos de nos adaptar. Não adianta mais ficar apenas no discurso de denúncia do golpe.

Isso quer dizer o quê?

O PT foi fragorosamente derrotado. O resultado das eleições municipais obriga a gente a virar essa página. Não dá para ficar só no discurso do golpe, que era verdadeiro, real. A população não quer isso que está aí, mas também não queria o que estava lá com Dilma. O PT tem de fazer uma profunda autocrítica, re-fazer-se e apresentar um novo projeto. Nós sofremos um tiroteio muito grande. O período que antecedeu o impeachment, com as ações do governo Dilma, que realmente não era bem avaliado, e a Lava-Jato indo para cima do PT, de Dilma, Lula e todos nós, estigmatizou pesadamente o partido.

0 senhor fala como se o problema fosse erro político ou a investida da Lava-Jato. Não houve corrupção?

Houve. Houve pessoas que podem ter se beneficiado pessoalmente? Claro. No nosso caso, as coisas que até agora têm sido identificadas foram feitas dentro de uma linha de fortalecer a política do partido. Foram feitas com o propósito de manter o poder e de fortalecer o PT. Nesse processo, perdemos as referências. Por isso, o mais importante é o que o PT vai propor daqui para a frente, os valores que pretende adotar.

O senhor é favorável a que o PT admita publicamente ter se envolvido em corrupção, uma atitude que o partido não tomou até hoje?

Sim, a autocrítica é necessária, essencial, mas não é suficiente. Serão necessárias algumas ações mais amplas. O partido precisa recuperar a credibilidade diante da população. Fomos eleitos com um discurso e adotamos uma política econômica distante desse discurso, sem sequer explicar isso à população. Muita gente se sentiu enganada.

O PT deve pedir perdão?

Eu não elimino essa possibilidade. O próximo congresso do partido, em junho, pode ser um marco importante para o PT. E entre as coisas que ele pode consagrar está uma visão autocrítica que chegue a ponto de dizer ao povo que nós erramos, que nós pedimos desculpas pelos erros que cometemos e que nossos acertos foram maiores. Devemos dizer também que queremos voltar ao poder não para repetir os erros, mas para multiplicar os acertos. Acho que o futuro do PT vai depender muito de como o próprio Lula vai colocar isso. É visível que há gente dizendo que ele está acabado, deixou de fazer isso e aquilo. Então vai ter de chegar a hora em que ele vai ter de dizer, da boca dele: “Olha, isso foi errado, foi feito errado etc”.

Mas o ex-presidente Lula corre o risco de acabar preso pela Lava-Jato.

Se um fato como esse acontecesse, seria uma violência institucional e política sem precedentes. Uma coisa como essa talvez até ampliasse a força política de Lula. Como não existem provas, argumentos que justifiquem a prisão dele, acredito que ele não só vai estar livre como será candidato.

O senhor acha que o PT sobrevive sem Lula?

Não acho que o PT vai acabar se o Lula sair da cena política. O PT tem uma história, conquistas importantes que dão uma base sólida para sobreviver. Tem vida própria. Muitas vezes até o ex-presidente foi voto vencido em assuntos relevantes dentro do partido. É lógico que, a exemplo da escolha de Dil-ma, o prestígio dele foi importante. Mas o partido construiu muitas lideranças ao longo do tempo. É verdade que muitas delas foram engolidas no processo do mensalão e da Lava-Jato. Mas o PT conta com uma base social importante.

Por que o senhor desistiu de liderar o PT no Senado?

Ser líder é uma responsabilidade enorme, um peso muito grande. Os anos de 2015 e 2016 foram muito difíceis. Além da prisão do Delcídio e de outros, houve a posição do PT sobre determinados assuntos. Em certos momentos, eu, como líder, fiquei como um general sem tropa. Com a saída de Dil-ma, aconteceram muitos conflitos, muitas divergências dentro da bancada. Há dois grupos bem distintos. O meu, que defende uma posição mais aberta, mais negociadora. E o da senadora Gleisi Hoffmann, que assumiu a liderança no meu lugar e quer o enfrentamento permanente. Na minha visão, não é possível ter uma orientação de enfrentamento permanente.

Essa cisão ficou clara na eleição do senador Eunício Oliveira para a presidência do Congresso . Nesse processo, um grupo tomou a posição deliberada de pegar um tema interno, de interesse única e exclusivamente do PT, e criar uma cruzada contra outro grupo. Quem se interessou pelo debate sobre se o PT votaria ou não no Eunício Oliveira? Só o PT. E aí o que eles, Lind-bergh Farias e Gleisi Hoffmann, fizeram foi jogar uma parte da mili-tância contra o grupo dos parlamentares que defendiam o entendimento. Depois da eleição, ainda redigiram um documento em que declaravam não ter votado no Euní-cio. Fomos escrachados, nos expuseram ainda mais. E ficou assim: todos nós fizemos acordo com os golpistas, mas só alguns votaram.

Não é incoerente o PT fazer uma aliança com aqueles que os próprios petistas classificam como golpistas?

Um dos pilares da posição deles é que, uma vez que ocorreu o impeachment, vivemos um período de exceção e não cabe haver entendimento. Ou seja: tudo tem de ser governo e oposição. Eu diria que se trata de um pretexto. Mudaria alguma coisa no Brasil se a gente se posicionasse contra? Não, claro.

Que postura o senhor acha que o PT deve assumir em relação ao governo Temer?

Nós temos de responder, como oposição, ao desmonte que eles estão fazendo, com a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, a questão do congelamento dos gastos públicos e a política de juros. Mas precisamos mostrar à sociedade como sair da crise. Não basta criticar. Temos de apresentar um programa, um projeto, alguma coisa. É nisso que eu acho que vai residir o papel de Lula. Assumindo ou não a idéia de ser candidato, ele e o PT precisam começar a falar a outros setores da sociedade. Inclusive setores que foram para as ruas iludidos, achando que o problema era o PT e que quando tirassem o PT do poder tudo estaria resolvido.

O senhor apoia o movimento no Congresso para anistiar o crime de caixa dois?

Sou contra a anistia. Mas é bom que se faça uma ressalva. O caixa dois não é um crime com a mesma gravidade que receber doações como propina. Às vezes, o próprio doador exige fazer a doação sem registro. Muitas vezes, as empresas faziam doações por meio de caixa dois porque tinham um limite para doação legal. Todo mundo sabe que isso existe, existiu. Mas não é a mesma coisa que receber propinas para votar projetos no Congresso. Há movimentações no Congresso para anistiar o caixa dois porque houve muito exagero do Ministério Público no trato dessa questão. Querem cassar o PT, o PMDB, o PSDB… Não é assim. É preciso estabelecer uma diferença, uma grada-ção entre o que é crime de caixa dois e o que é propina em formato de doações.

Que linha econômica o partido deve defender: a mais ortodoxa, adotada por Antônio Palocci, ou a mais intervencionista, adotada por Guido Mantega?

A idéia de promover ajustes e mais ajustes está perdendo força dentro do FMI, da Comunidade Européia e nos Estados Unidos. A saída de diminuir o tamanho do Estado e acreditar que o investimento privado vai fazer com que a economia seja retomada é uma idéia superada. Precisamos continuar apostando na construção de incentivos que partam do Estado. Incentivos de acesso ao crédito, que movimenta a economia. Com isso, pode-se criar um clima de confiança e, ao mesmo tempo, recuperar a arrecadação, o que permite realizar novos investimentos e fazer com que a economia se realimente.

Mas isso não seria repetir os erros que afundaram a economia brasileira no governo de Dilma?

O que afundou a economia foi o fato de que demos incentivos demais em momentos que não eram ideais. Se você vai fazer uma política de desoneração fiscal, precisa atrelar isso a um objetivo: estimular a empresa a não parar de produzir e a manter os empregos. Então há que direcionar isso para quem faz uso intensivo de mão de obra e tem condições de faturar mais alto. Tudo o que o governo mandou para cá o Congresso multiplicou por dez. Logo estávamos dando estímulo a comerciantes que importam coisas. Qual a repercussão disso no emprego do país? Nenhuma. Sou favorável a que se possam desonerar temporariamente setores que geram postos de trabalho.

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