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Para Mariz, críticas à Lava Jato causam ‘temor’ no governo, diz o Estadão

O criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira disse ontem, em entrevista ao Estado, que seu posicionamento crítico ao que chama de “excesso dos operadores da Lava Jato” causa “dissabores” ao governo e dificulta sua ida para o Ministério da Justiça. Se dizendo “aliviado”, Mariz afirmou que não pretende assumir a pasta mesmo que seja formalmente convidado pelo presidente Michel Temer, seu amigo.

O sr. descarta o Ministério da Justiça?

O presidente Michel e eu chegamos à conclusão que a minha ida para o Ministério poderia importar em alguns dissabores para o governo neste momento em face do meu posicionamento em relação à Lava Jato. Posicionamento que já me levou a não ser nomeado em outra oportunidade. Perdura o meu posicionamento e perdura o temor de que a minha eventual nomeação venha a trazer algum problema para o governo.

O sr. é contra a Lava Jato?

Não sou contra a Lava Jato, ela traz benefícios que nenhuma outra movimentação de combate à corrupção trouxe ao País. Mas eu reitero que há excessos dos operadores da Lava Jato, em detrimento não só dos processos diretamente relacionados à Lava Jato, como das próprias garantias individuais em relação a todo e qualquer processo criminal. Está havendo sim algumas decisões que estão contrariando direitos individuais e a própria Constituição e alguns princípios que sempre regeram o Direito Penal.

Como o sr. se sentiria no cargo de ministro sendo advogado de alvos da Lava Jato?


De fato há um outro problema. As consequências da minha ida, para mim, pessoalmente. Eu tenho um escritório de advocacia criminal e tenho clientes que estão respondendo a processos direta ou indiretamente relacionados à Lava Jato. No momento em que eu assumisse este posto, este cargo, eu obviamente teria que me afastar de todos os casos. Eu estaria impedido de advogar. Poderia até me afastar do escritório, tirando o meu nome do quadro de sócios, mas eu estaria colocando esses clientes em posição difícil.

Por quê?


Porque esses clientes voltariam a ser alvo e eu estaria colocando em risco a manutenção desses clientes no meu escritório. Eu tenho mais 12 advogados aqui, inclusive um filho e uma filha, que poderiam ser profundamente prejudicados com a saída de alguns clientes importantes. Eu teria dificuldades em me explicar aos meus clientes, criando uma situação muito difícil para eles e para o meu escritório. Mesmo que o presidente tivesse feito o convite formal eu teria que declinar.

O presidente Michel Temer o consultou sobre a possibilidade de ir para o Ministério?


Ele conversou comigo. O convite estava implícito, mas conversamos sobre as consequências para o governo da minha ida. Chegamos à conclusão que o melhor era eu não ir para o Ministério, reforçada agora essa ideia por essas consequências que isso traria para o meu escritório.

Para o governo seria constrangedor o sr. no Ministério da Justiça?


Eu entendo que não, mas haveria sim uma repercussão grande contra o governo, não real, mas uma repercussão midiática muito grande.

Se sente decepcionado?


Ao contrário, eu tenho sentimento de muito orgulho, não só pela cogitação, pela notícia de que eu seria formalmente convidado, mas ainda mais pela repercussão do meu nome, as manifestações da classe jurídica. Foi emocionante, inclusive adversários meus me apoiaram.

Amargurado?


Estou aliviado, estou aliviado porque se o convite viesse formalmente e eu aceitasse eu absolutamente perderia o sossego. Imagine, depois de 71 anos de vida e 50 de profissão, respondendo a questionamentos sem fundamento, agressivos.

Não há mais possibilidade de o sr. assumir a Justiça?


Eu não quero, está fora essa possibilidade. Houve um consenso de que o melhor é eu não ir. O convite estava implícito. Ele (Michel Temer) queria, era o sentimento dele (….) Na sexta-feira passada o Michel me chama lá (na casa do presidente em São Paulo) e aí começamos a conversar sobre o problema da Lava Jato. Então, foi um consenso que eu não deveria ir.

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