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‘Estou triste com a prisão, não via este lado do Cabral’, afirma Pezão é o título de matéria na Folha

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), vive dias de forte turbulência.

Na quarta-feira (8), ele teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral por irregularidades na campanha de 2014. O peemedebista vai recorrer no cargo.

No dia seguinte, Pezão entrou na mira da Polícia Federal, que o acusa de receber repasses do esquema do aliado Sérgio Cabral (PMDB).

Os protestos de servidores ganharam força, e agora a PM ameaça entrar em greve contra o atraso nos salários.

Com o Estado falido e sob pressão da família, que já tentou convencê-lo a renunciar, o governador diz que só teve uma alegria nesta semana: a classificação de seu time na Copa Libertadores. “Quem é Botafogo enfrenta qualquer crise”, brincou, em entrevista no Palácio Guanabara.

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Folha O TRE o condenou por conceder benefícios a empresas que financiaram sua campanha. Houve uma troca?

Luiz Fernando Pezão Todas as empresas trabalhavam para o Estado, que vivia um boom de investimentos. Eu pedi doação dentro da lei.
Vou me defender. É uma cassação que não procede, e que a gente derruba aqui ou no TSE. Tenho tranquilidade.

A ação cita exemplos como o da JBS, que recebeu um terreno e logo depois doou R$ 6,6 milhões para o seu comitê.

A JBS não recebeu o terreno do Estado, foi da Prefeitura de Barra do Piraí. São muitas ilações. Pode ter havido coincidência, mas a JBS é um erro.

A Justiça é soberana, a gente tem que obedecer e se defender. Eu fico triste quando primeiro te jogam às feras e depois vão perguntar.

O sr. também foi jogado às feras pela Polícia Federal, que pediu ao STJ para investigá-lo por suspeita de corrupção.

É a segunda vez. Teve a primeira leva da Lava Jato [em 2014]. Reviraram minha vida toda, e a PF pediu arquivamento duas vezes [a Procuradoria-Geral da República optou pela continuidade do inquérito no STJ].

Estou aberto a qualquer esclarecimento. O desgaste é que é grande, te expõe muito. Meu filho é louco para entrar na política e eu não deixo. Maluco na família basta um.

Um novo relatório da PF liga seu nome a cinco repasses de R$ 140 mil e um de R$ 50 mil.

Ali fala em indícios, né? Eu não vou comentar indícios. Quando chegar no STJ, vão perguntar e eu respondo.

O sr. nunca recebeu nenhum desses repasses?

As empresas estão depondo lá e contando como eu procedia. Todas falaram que eu só pedi ajuda para a minha campanha, o que a lei permitia.

O autor das anotações que o citam, Luiz Carlos Bezerra, é tido como operador de Sérgio Cabral. O sr. o conhece?

Todos os amigos do Sérgio eu conheço. Convivi dez anos com eles. A gente passava o réveillon em Mangaratiba.

E nunca teve conversas com ele sobre dinheiro?

Não. Zero.

Cabral está na cadeia, acusado de chefiar uma organização criminosa. Como o sr. se sente tendo sido o vice dele?

Triste, chateado. Eu não via este lado dele. Eu via o lado dele de fazer as coisas. O Sérgio foi um gestor que implementou políticas públicas que serviram de modelo para o Brasil inteiro, como as UPPs e as UPAs. Sempre foi um grande agregador, e eu procuro guardar essa imagem dele.

Eu sofro muito porque ele é um grande amigo. Tenho sentido muito por ver ele e a Adriana [Ancelmo, mulher de Cabral] lá e os filhos aqui fora.

Mas ficou claro que ele tinha um padrão de vida incompatível a renda de político.

A Adriana tinha o escritório dela… Aí eu não vou entrar na vida pessoal deles.

O sr. nunca desconfiou que ele estivesse desviando dinheiro?

Nunca vi isso, nunca percebi. Para mim, é uma grande surpresa. Não sou eu que tenho que julgar as pessoas.

Por que manteve o filho dele como secretário de Esportes mesmo depois da prisão?

Não tem nada a ver, né? E ele é que quis sair para exercer o mandato de deputado. Eu não o tirei por causa disso.

Por que o sr. não foi visitar o ex-governador na cadeia?

Eu sei que isso prejudicaria ele, ele iria para o Paraná. Ele tem restrições a visitas, principalmente de políticos.

O sr. teme que ele o cite numa eventual delação premiada?

Aí é com ele, com o advogado dele. Estou tranquilo quanto a isso. Minha vida está aberta, podem investigar.

O Estado não vai tentar reaver o dinheiro que foi desviado?

Vamos ver. Mas tem que comprovar. Isso ainda está em fase de a gente comprovar.

A PM ameaça entrar em greve. O Rio pode viver o mesmo pesadelo do Espírito Santo?

Não. Vou pagar a folha salarial na terça (14), já com aumento. A polícia tem sido muito solidária com a gente.

Como está o caixa do Estado?

Nosso déficit este ano é de R$ 19 bilhões, sendo R$ 12 bilhões só na Previdência. Estamos lutando por uma saída. Se não tiver ajuda do governo federal, vai ser muito difícil.

Alguns economistas dizem que o Rio gastou demais, exagerou nas isenções fiscais e agora quer ser premiado pela irresponsabilidade.

Estamos pedindo instrumentos que foram usados por governos anteriores. Não estou criando uma jabuticaba carioca. Propus o ajuste mais duro que já se fez na nação. Aumentar alíquota da Previdência, aumentar impostos, vender imóveis. São medidas duras.

O sr. se sente em condições de tocar o mandato até o fim?

Acho que sim. Estou muito animado, nada me abate. Estamos tomando rumo neste momento difícil. Falo quase todo dia com o ministro Henrique Meirelles e com o presidente Michel Temer. Estou olhando para a frente.

Cogita renunciar ao mandato?

Não, de jeito nenhum. Quando tive câncer, os médicos não queriam que voltasse. Fiquei sete meses afastado, ainda não me recuperei e voltei para enfrentar isso aqui. De jeito nenhum. Vou até o final.

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