Noticias

Em depoimento, Cunha contraria Temer, diz o Estadão

Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) afirmou que o presidente Michel Temer participou, em 2007, de reunião com a bancada do PMDB para discutir indicações do partido para diretorias da Petrobrás. O deputado cassado contrariou a versão apresentada por Temer em manifestação como testemunha de defesa arrolada pelo próprio Cunha.

O ex-presidente da Câmara – preso preventivamente desde outubro do ano passado – foi interrogado ontem pela primeira vez como réu da Operação Lava Jato na primeira instância. Na ação penal a que responde na Justiça Federal em Curitiba, Cunha é acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas por receber propina oriunda de um negócio fechado pela Petrobrás em Benin, na África, e manter o dinheiro em contas secretas na Suíça.

Fui comunicado (sobre a reunião), tanto eu como Fernando Diniz (ex-presidente do PMDB de Minas, morto em 2009), na época, pelo próprio Michel Temer e pelo Henrique Alves (ex-deputado e ex-ministro). O Michel Temer esteve nessa reunião junto com (o ex-ministro) Walfrido dos Mares Guia”, disse Cunha em resposta a um questionamento de sua própria defesa.

Segundo ele, a reunião foi convocada por causa do “desconforto que existia com as nomeações do PT, de Graça Foster para a Diretoria de Gás e de José Eduardo Dutra para a presidência da BR Distribuidora, terem sido feitas sem as nomeações do PMDB terem sido feitas”.

De acordo com Cunha, “houve uma revolta da bancada do PMDB na votação da CPMF” na época. Temer era o presidente nacional do PMDB na ocasião.

No depoimento por escrito a Moro, Temer declarou que “não houve essa reunião”. Ontem, o Planalto disse que Temer “reafirma que não participou de reunião no Palácio do Planalto sobre indicação do PMDB para cargo na Petrobrás”.

Cunha disse a Moro que a “resposta do presidente Michel Temer nas perguntas está equivocada”. “Ele (Temer) participou, sim, da reunião e foi ele que comunicou a todos nós o que tinha acontecido na reunião, porque não era só o cargo da Petrobrás, eram outras várias discussões que aconteciam no PMDB”, afirmou.

O ex-presidente da Câmara declarou ainda que costumava se reunir semanalmente com Temer e outros peemedebistas para “debater e combinar toda situação política”. “Tudo era reportado, sabíamos de tudo.”

Aneurisma. Em quase três horas de interrogatório, Cunha respondeu a todas as perguntas do magistrado e do Ministério Público. Ao final, fez um apelo por liberdade. Ele disse a Moro ter um aneurisma cerebral como o da ex-primeira dama Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que morreu na semana passada.

Após relatar seu quadro de saúde, Cunha disse que o presídio onde se encontra não oferece condições de atendimento médico. Ele está preso no Complexo Médico-Penal de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

Também sofro do mesmo mal que acometeu a ex-primeira-dama Marisa Letícia, um aneurisma cerebral. O presídio onde ficamos não tem a menor condição de atendimento se alguém passar mal. São várias as noites em que os presos lutam sem sucesso por tratamento médico e não são ouvidos pelos poucos agentes que lá ficam à noite”, disse Cunha, lendo uma carta escrita de próprio punho.

A defesa de Cunha afirmou, após a audiência, que não tinha conhecimento da doença. Nos bastidores, o deputado cassado mostrou esperança em ver sua prisão revertida no Supremo Tribunal Federal. Hoje a Corte julga uma reclamação do peemedebista. O novo relator da Lava Jato no STF, Edson Fachin, manteve o julgamento de um recurso de Cunha na pauta do plenário – a defesa pede a anulação da prisão preventiva.

Poupança’. O deputado cassado disse ainda a Moro que os recursos que mantinha em contas no exterior administradas por trusts eram usadas como investimento, uma “aplicação”. De acordo com ele, os valores eram usados para consumo e viagens ao exterior – e, portanto, não foram usados no Brasil.

Há vários momentos nessa situação. Em todas usava como se fosse uma caderneta de poupança”, disse. Cunha afirmou que o dinheiro é de origem lícita e negou recebimento de propina. Ele disse manter as contas há mais de 25 anos.

 

Deixe uma resposta