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Crise faz economia de 12 estados retroceder 6 anos é a manchete do Globo

A recessão que atinge o Brasil desde 2015 é tão profunda e disseminada que, em 12 estados e no Distrito Federal, o tamanho da economia recuou ao patamar do fim de 2010, constatou estudo da consultoria Tendências. A queda do PIB nos últimos dois anos chega a 12%, informa

DAIANE COSTA. Estados com grande peso da indústria, como São Paulo e Amazonas, por causa da Zona Franca de Manaus, estão entre os mais afetados. Rio e Pernambuco sentiram o impacto da crise na Petrobras e, segundo especialistas, devem demorar mais a retomar o crescimento. No Nordeste, quatro estados estão no grupo, afetados pela seca. Os dois anos de recessão que o país amargou em 2015 e 2016 fizeram a economia de 12 estados mais o Distrito Federal (DF) retroceder ao patamar do início da década. É o que mostra estudo da Tendências Consultoria Integrada, obtido pelo GLOBO. De acordo com as projeções do economista Adriano Pitoli, o Produto Interno Bruto (PIB) de todas as 27 unidades da federação encolheu neste biênio. E, para 13 delas, o tombo foi tão grande que anulou a expansão vivenciada entre 2011 e 2014. Ou seja, o PIB desses estados e do DF está hoje de um tamanho menor do que o registrado ao fim de 2010.

Segundo os cálculos da Tendências, as perdas mais expressivas ocorreram nos quatro estados do Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais), no Rio Grande do Sul e Paraná, no Amazonas, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e na Bahia, além do Distrito Federal. Ou seja, o estudo da Tendências mostra que a recessão que atingiu o Brasil foi disseminada, afetando tanto as regiões mais ricas do Sudeste e do Sul, como estados do Nordeste. Os números oficiais dos PIBs estaduais são medidos pelo IBGE, mas os últimos dados disponíveis são de 2014.

Para Pitoli, o denominador comum dessa queda generalizada de PIB foi a má condução da política econômica brasileira:

Os estados que tinham uma dinâmica econômica atrelada às políticas do governo, que eram insustentáveis, de estímulo ao consumo, de um BNDES agigantado e de investimentos puxados por estatais, como a Petrobras, terão de fazer um esforço maior para voltar a se recuperar. É o caso de Pernambuco e do Rio de Janeiro.

RIO ENCOLHE 7,2% E RECUPERAÇÃO DEVE DEMORAR O Rio de Janeiro, cujo PIB encolheu 7,2% em dois anos, de acordo com o estudo, tem um dilema ainda maior, devido à crise de suas contas públicas e ao que o economista classifica como um legado perverso deixado pelos Jogos Olímpicos:

Gastou-se muito tempo e muito dinheiro em investimentos que agora não se consegue tornar viáveis.

A Secretaria de Estado de Fazenda do Rio disse, em nota, que, com exceção do setor de serviços, cujo desempenho no estado começou a piorar no segundo semestre de 2016, todos os outros setores de peso na economia regional não só apresentaram grandes quedas a partir de meados de 2015, como tiveram desempenho pior do que a média no país: “O que mostra a dificuldade ainda maior para o Rio de Janeiro enfrentar uma das maiores crises já verificadas no Brasil”.

Amazonas e São Paulo, dois estados bastante industrializados, e portanto mais sensíveis aos ciclos econômicos, tendem a ter uma recuperação mais acentuada assim que a economia do país voltar a crescer, preveem analistas. Marcelo Souza, superintendente adjunto de Planejamento da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), polo industrial responsável por 92% da receita do estado do Amazonas, diz que a recessão levou o complexo a demitir 30 mil pessoas:

Em casos de recessão, as empresas do polo reduzem os quadros momentaneamente, para manterem as plantas em funcionamento. São sempre as últimas a entrar na crise e continuam se mantendo fortes, porque têm incentivos fiscais garantidos em Constituição. Mas, como 95% do faturamento delas vêm do mercado interno e a demanda caiu muito, as demissões foram necessárias.

AMAZONAS SOFRE COM CRISE NA ZONA FRANCA Segundo Souza, como o setor industrial no Amazonas é vinculado diretamente ao comércio e serviços, o desemprego na Zona Franca provoca um efeito dominó na economia do estado. Ele garante, no entanto, que desde maio as indústrias do polo já voltaram a contratar. O quadro atual é de cerca de 80 mil funcionários nas 600 empresas da Zona Franca e a estimativa é que encerrem 2017 com adição de outros 20 mil trabalhadores. Em sua melhor fase, o complexo chegou a ter 130 mil funcionários. De acordo com o estudo da Tendências, o Amazonas teve a maior queda acumulada de PIB (12,2%) nos anos de 2015 e 2016.

A economia paulista padece por razão semelhante. Segundo o estudo da Tendências, o recuo acumulado em 2015 e 2016 foi de 6,9%.

O peso da indústria é muito grande na economia do estado, apesar do setor de serviços já a ter ultrapassado. E, como os dois motores do setor, bens de consumo duráveis e de capital, são muito sensíveis ao crédito e ao emprego, é comum que retraia em momentos de recessão, desencadeando um efeito negativo em outros setores e segmentos atrelados – analisa André Grotti, responsável pela Assessoria de Política Tributária (APT) da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo.

No Nordeste, a forte seca que castigou a região nos últimos anos também derrubou a economia. Segundo Alan Malinski, assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), uma das regiões mais afetadas foi a do Matopiba, que inclui áreas de plantio de soja, milho e algodão do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Mesmo com aumento da área plantada e investimentos em tecnologia, esses estados tiveram quedas no valor bruto da produção entre 8% e 44% na safra 2015/2016. Como a expectativa é de colheita recorde de grãos este ano (215 milhões de toneladas) Pitoli acredita que essas unidades da federação têm um possibilidade de recuperação melhor do que os outros estados.

Este ano, com as chuvas regularizadas, o Matopiba deve produzir entre 12 e 20 milhões de toneladas de grãos, voltando a ser responsável por 9% a 10% da safra brasileira — reforça Malinski.

Frederico Cunha, gerente das Contas Regionais do IBGE, lembra que na década anterior à crise, estados do Nordeste, Centro-Oeste e Norte vinham crescendo acima da média do PIB brasileiro, que entre 2002 e 2014 expandiu cerca de 3,5% ao ano.

O desenvolvimento do Nordeste foi favorecido pelo aumento real do salário mínimo e da renda total, pelo sistema de proteção social do governo Lula e por governos estaduais saudáveis, o que aumentou a demanda por serviços e a arrecadação de impostos nesse período — explica Cunha.

NO ESPÍRITO SANTO, SAMARCO DERRUBA PIB

Como Sul e Sudeste são responsáveis por 71% do PIB nacional, têm taxas mais próximas ao resultado Brasil, complementa o gerente do IBGE.

O economista da Universidade de Brasília Newton Marques destaca que, por serem pouco industrializados, Norte e Nordeste têm economias de baixo dinamismo:

Não há efeito de encadeamento nem para frente, nem para trás. A administração pública tem peso grande na economia dessas regiões.

O Espírito Santo teve o segundo pior desempenho no biênio da recessão. Seu PIB recuou 11,5% em 2015 e 2016, só Amazonas teve um resultado pior (-12,2%). A economia capixaba foi duramente afetada pelo desastre da Samarco, em Mariana (MG), que culminou com a paralisação das atividades da mineradora, que ainda está inoperante. As usinas de pelotização da Samarco ficam em Anchieta (ES).

A indústria extrativa representa quase um quarto da economia capixaba, de acordo com Andrezza Rosalém, diretora-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, que produz e organiza dados voltados ao desenvolvimento socioeconômico do Espírito Santo. Para se ter uma ideia do peso da empresa na economia do estado, o instituto estima que, se a Samarco já tivesse retomado os trabalhos, o PIB capixaba cresceria 10% este ano. Mas o resultado deve ser bem pior. Mesmo se as expectativas de a empresa retomar as atividades no segundo semestre se concretizarem, a economia do ES ainda recuará 0,5% em 2017.

Temos uma atividade pautada em commodities, cujos preços caíram muito, e somos uma economia muito aberta, então sentimos o impacto dos problemas nos demais estados — acrescenta Andrezza.

Nas contas da Tendências, em 2017 todas as regiões do país voltarão a crescer. No Sul, a expansão será de 0,4% e no Sudeste, de 0,5%, próximo ao projetado pela consultoria para o Brasil (0,7%). Já o Centro-Oeste deve crescer 1,4% e o Nordeste 2%, ambos puxados pela expectativa de safra recorde. Em razão da previsão de inauguração de um projeto de US$ 14,3 bilhões da mineradora Vale no Pará, o PIB do Norte deve expandir 2,9%, prevê a consultoria.

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