Noticias

Apoio comprado com dinheiro sujo é o título de reportagem da Veja sobre delação de Marcelo Odebrecht

EM UMA REUNIÃO em 2014 com Marcelo Odebrecht, à época presidente da maior construtora do país, e o então diretor de Relações Institucionais da empreiteira, Alexandrino Alencar, o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff à reeleição, Edinho Silva (PT), foi claro: precisava de 35 milhões de reais para garantir a adesão de cinco partidos à chapa da petista e, assim, conquistar preciosos minutos na propaganda eleitoral na televisão. Mais precisamente, dois minutos e 59 segundos, decorrentes da aliança com Prós, PCdoB, PRB, PDT e PR A divisão do bu-tim seria feita de forma igualitária, 7 milhões de reais para cada sigla. A informação sobre o acerto, levado a cabo, consta do acordo de delação premiada dos dois executivos, homologado na semana passada pela presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia.

Segundo o que Marcelo Ode-brecht e Alexandrino Alencar delataram em seus acordos, a propina foi paga, através de caixa dois, diretamente aos partidos beneficiados, e saiu do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, que cuidava do dinheiro sujo da empreiteira. Em alguns casos, ao menos, o repasse foi feito em dinheiro vivo. Procurado por VEJA, Edinho Silva negou as informações. Afirmou que se reuniu com Marcelo e Alexandrino apenas duas vezes — uma na sede da empresa e a outra na casa do dono da Odebrecht. De acordo com o ex-tesoureiro, que hoje é prefeito de Araraquara, os encontros trataram de doações para a campanha de Dilma em 2014 — mas, segundo ele, aconteceram depois que a coligação de partidos que apoiava a petista já estava fechada. Procurada, a Odebrecht informou que não pode comentar o assunto em razão da cláusula de confidencialidade dos acordos de delação.

Uma vez confirmadas com provas e outros detalhes, as delações vão atestar que, quase uma década depois do mensalão, o PT não abandonara a prática de comprar o apoio de partidos aliados com o dinheiro da corrupção. No escândalo precursor do petrolão, os pe-tistas pagavam gordas somas mensais aos aliados (e até mesmo a integrantes do próprio partido, como João Paulo Cunha e Professor Luizinho, só para ficar em dois dos mais notórios) para garantir sua fidelidade no Congresso.

Segundo duas pessoas que tinham conhecimento da engrenagem do propinoduto da Odebrecht, o dinheiro saiu de um “caixa único” comandado por Marcelo. O dono da empreiteira definia anualmente — primeiro com Antônio Palocci e depois com Guido Man-tega, ambos ministros da Fazenda durante a era petista — qual seria o valor destinado ao PT naquele período. A partir daí, os pedidos eram “abatidos” da conta, como foi o caso dos 35 milhões para comprar os partidos na campanha de 2014. A tática tinha o objetivo de evitar que a voracidade dos políticos se estendesse além da conta.

O tempo de TV foi crucial para a vitória de Dilma na disputa da reeleição — no primeiro turno, sua coligação, que contava ainda com PMDB, PSD e PR, teve onze minutos e 24 segundos no total; o segundo colocado nesse quesito, o tucano Aécio Neves, dispunha de quatro minutos e 35 segundos. Sob os auspícios do marqueteiro João Santana (também alvo da Lava-Jato), a campanha petista utilizou a vastidão televisiva para pintar um céu azul por cima da tempestade econômica que já se formava e massacrar adversários (entrou para os cânones da história das eleições, por exemplo, o vídeo que acusava Marina Silva de tirar a comida do prato dos pobres por defender a independência do Banco Central).

Com Dilma Rousseff já fora do poder, a delação tem um enorme potencial de estrago para seu sucessor, Michel Temer. A revelação deve complicar ainda mais sua situação no Tribunal Superior Eleitoral, na ação que analisa precisamente se houve abuso de poder político e econômico na eleição de 2014. O atual presidente do TSE, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes,

já afirmou que pretende aproveitar as delações da Odebrecht no julgamento — a informação de que 35 milhões de reais de caixa dois irrigaram os cofres de partidos aliados em troca do tempo de TV é a acusação mais contundente feita até agora no processo. E, como é mínima a probabilidade

de que as contas de Dilma e de Temer sejam julgadas de forma separada — como pediu o presidente —, cresce a possibilidade de um desfecho desfavorável ao peemedebista no tribunal. Isso, claro, se forem levados em conta os aspectos estritamente técnicos da questão.

Deixe uma resposta