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‘Ary Fichinha’ era operador de Cabral na Receita estadual, diz O Globo

Apontado pela PF como um dos principais operadores do esquema do ex-governador Sérgio Cabral, o fiscal Ary da Costa Filho foi preso. O agente fazendário Ary Ferreira da Costa Filho, preso ontem no Rio, durante a Operação Mascate, intermediava a troca de favores entre políticos fluminenses e empresários dispostos a burlar o fisco estadual. Denunciado por um dos sócios de uma rede de concessionárias de veículos, que pagou pelo menos R$ 10 milhões ao esquema comandado por Sérgio Cabral para receber blindagem tributária, Ary foi apontado pelos investigadores da Procuradoria da República no Rio e da Polícia Federal como um dos principais e mais antigos operadores do ex-governador.

Com ordem de prisão preventiva decretada pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, Ary só foi localizado no início da tarde, ao ser parado em barreira da Polícia Rodoviária Federal na Rodovia Presidente Dutra, altura da Pavuna, na Zona Norte do Rio. Pela manhã, agentes da PF vasculharam pelo menos dez endereços relacionados ao agente fazendário, mas não o encontraram. Como localizaram malas prontas em um dos imóveis, os policiais suspeitam que ele tentava fugir.

Nos corredores da Secretaria estadual de Fazenda, o operador era conhecido como “Ary fichinha”. Isso porque, relatam alguns colegas, distribuía senhas para os empresários que o procuravam em busca de algum tipo de vantagem, principalmente o perdão de multas por sonegação de ICMS. Ary, que se apresentava como amigo de juventude de Cabral e o ajudava a organizar bailes para a terceira idade quando ensaiava os primeiros passos na vida política, atuava principalmente junto à Inspetoria de Veículos e da Material Viário da Secretaria de Fazenda, mas tinha forte influência nas Inspetorias Especializadas de Substituição Tributária, de Bebidas e de Supermercados.

ASSESSOR ESPECIAL DO ENTÃO DEPUTADO

A proximidade entre Ary Filho e Cabral foi demonstrada pelas sucessivas nomeações para assessorar o político na Assembleia Legislativa (1996), Senado (2004) e governo do Estado (2007 e 2010). O assessor especial do ex-governador pediu sua exoneração em julho de 2010 e retornou ao cargo em outubro, após a campanha à reeleição. Ele se manteve nesse cargo no governo Pezão, do qual pediu sua exoneração no dia 6 de dezembro passado, um dia após o oferecimento da denúncia contra Cabral da Operação Calicute.

É um momento importante da operação porque Ary era um dos mais importantes operadores financeiros da organização criminosa. Mais um elo que se fecha. As investigações seguem e a gente espera com o resultado nas buscas e apreensões aprofundar ainda mais o trabalho — explicou Leonardo Cardoso de Freitas, procurador da República e coordenador da Calicute.

As investigações demonstraram que Ary e outro ex-assessor do ex-governador, Carlos Miranda, cometeram lavagem de ativos usando a LRG Agropecuária (antiga consultoria GRALC) e as concessionárias de automóveis Eurobarra e Americas Barra. O MPF considerou a consultoria um “empreendimento peculiar, pela notável oscilação do faturamento” entre 2007 e 2015. As investigações apuraram a movimentação de milhões de reais em dinheiro em espécie, com a utilização de contratos de gaveta na aquisição de imóveis e veículos. Essas condutas, para os investigadores, confirmam a ocultação e a lavagem de dinheiro em “franca atividade”.

Os investigadores chegaram ao nome de Ary com a ajuda de um acordo de colaboração assinado por um dos empresários beneficiados pela blindagem vendida pelo agente fazendário. Adriano José Reis Martins, um dos sócios da Eurobarra e da Américas Barra, rede de concessionárias de veículos, contou que Ary o protegia dos rigores da fiscalização de ICMS. Pelo menos três imóveis de luxo, pertencentes à empresas ligadas à família de Adriano, eram usados na Barra da Tijuca

A soma total de renúncia de tributos favorecendo o grupo de Adriano e família (Eurobarra, Dirija Niteroi, Barrafor, Americas Barra Rio, Disbarra, Klahn, Space Veiculos, Nova Yen Motors e Mitsumar Veiculos), de 2008 a 2014 (governo Cabral), foi de R$ 1,3 bilhão. CONTRATAÇÃO FICTÍCIA Ary também foi sócio do empresário Gustavo Ferreira Mohammad, dono da Creações Opção, rede de malharias que teria ajudado Cabral a lavar dinheiro. Nos arquivos da Junta Comercial do Rio, ele aparece como sócio da C. A. G. Treinamento de Pessoal, junto com Gustavo, da Creações Opção. A empresa funcionou de 2004 a 2006, em Petrópolis. De acordo com a Operação Calicute, a Opção foi usada para esquentar dinheiro para Sérgio Cabral.

Os investigadores concluíram que Sérgio Cabral, a partir da criação de sua empresa, a Objetiva Gestão e Comunicação Estratégica Ltda., “estaria promovendo contratações fictícias, com o fim de legitimar ingressos de recursos financeiros espúrios em seu patrimônio, típica atividade de lavagem de dinheiro”. Neste caso, a Objetiva fechou com a Opção contrato de “assessoramento estratégico” que estipulava o pagamento de R$ 60 mil mensais. De acordo com a força-tarefa da Lava Jato, o contrato “vem sendo religiosamente cumprido pela empresa contratante (Creações Opção) há mais de um ano”, apesar do prazo contratual ser de seis meses.

Os pagamentos da Creações para a Objetiva, suspeitam os investigadores, podem ter relação com outro esquema de lavagem, relacionado a empresa Trans-Expert Vigilância e Transporte de Valores. A empresa fez entre 2013 e 2015 R$ 25 milhões em depósitos em dinheiro na conta da Creações.

Ary passou a ocupar um lugar central na vida pública de Cabral ao operar como elo do então deputado estadual, eleito em 1990, com os empresários para conseguir dinheiro para as campanhas. Entre os doadores da campanha de Sérgio Cabral ao Senado, em 2002, aparecem três concessionárias de veículos ligadas à família de Adriano: Eurobarra Rio Ltda, que doou R$ 50 mil, Recreio Veículos, que doou R$ 18 mil, e Américas Barra Rio, que doou R$ 94 mil.

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