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No Senado, o pragmático que fez fortuna e gosta de festas, diz O Globo

O senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que deixa hoje a presidência do Senado, é descrito como uma esfinge e usou como poucos o poder de comandar a Casa e o Congresso Nacional para fortalecer a si e a seu suprapartidário grupo político. Seu sucessor, Eunício Oliveira (PMDB-CE), é descrito pelos colegas como mais aberto nas negociações e posições políticas, mas 100% pragmático.

Da fábrica de biscoitos onde começou a trabalhar aos 14 anos ao mundo empresarial, o administrador de empresas e cientista político formado tornou-se um dos homens mais ricos do Senado, e hoje acumula uma fortuna que R$ 99 milhões. Seu patrimônio cresceu 169% entre 2010 e 2014. O senador costuma esquiar em Aspen com a família e dá as festas mais badaladas do mundo político em Brasília.

A permanência de Eunício na presidência do Senado pelos próximos dois anos é uma incógnita. O avanço da Operação Lava-Jato pode abortar sua gestão, se forem comprovadas denúncias de que recebeu recursos de propina desviada da Petrobras. O novo presidente do Senado foi citado por três delatores: o ex-senador Delcídio Amaral, o ex-executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho e pelo ex-diretor de relações institucionais do Grupo Hypermarcas Nélson José de Melo.

O executivo da Hypermarcas disse ter repassado a Eunício R$ 5 milhões para sua campanha de governador em 2014. Já Cláudio Melo Filho, em sua delação vazada, diz ter repassado a Eunício R$ 2,1 milhões, através do sobrinho do senador, para que este ajudasse a aprovar a MP 613, que concedia incentivos tributários para empresas do grupo Odebrecht. Eunício seria o “Índio” na lista de beneficiários de propina da empreiteira. Eunício nega as acusações.

Ligado a um conglomerado de empresas do setor agropecuário, de serviços e segurança, Eunício pulou do mundo empresarial para o político ao articular a eleição do sogro, o falecido deputado Paes de Andrade (CE) para a presidência do PMDB, na década de 90. A partir da eleição de Paes de Andrade para a presidência da Câmara, as empresas de Eunício tiveram um crescimento significativo no leque de contratos na Esplanada dos Ministérios.

Eunício transferiu o comando de suas empresas quando se elegeu para o primeiro dos três mandatos de deputado, mas mantém até hoje participação societária na Confederal Vigilância e Transporte de Valores Ltda, Manchester Serviços Ltda e Corpvs Segurança, que prestam serviços de vigilância, limpeza e transporte de valores, e integram a holding Remmo Participações.

A liderança política de Eunício se consolidou no governo Lula, quando criou um grupo para se contrapor ao do hoje ex-ministro Geddel Vieira Lima, que articulava a saída do PMDB do governo pouco antes do escândalo do mensalão. Alçado por Lula ao Ministério das Comunicações, no início de 2004, ficou no posto até o julho de 2005, quando voltou ao Congresso em meio à crise do mensalão. Na Executiva nacional do PMDB, teve cadeira cativa como tesoureiro por vários anos.

A proximidade com Lula também garantiu a eleição de Eunício para o seu primeiro mandato de senador, numa composição com os irmãos Cid e Ciro Gomes. Cid foi eleito governador do Ceará e Eunício derrotou Tasso Jeiressati (PSDB-CE). Hoje Eunício e os irmãos Gomes são inimigos. No Senado, o senador se aproximou de Renan e do grupo integrado pelos caciques Romero Jucá (PMDB-RR), Edison Lobão (PMDB-MA), João Alberto (PMDBMA) e o ex-senador José Sarney.

Eunício era lulista de primeira hora. Nosso rompimento se deu porque ele passou a usar a política para enriquecer e resolveu ser candidato a governador em 2014 contra tudo e contra todos. E se reaproximou de Tasso por oportunismo — diz o ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato a presidente pelo PDT em 2018.

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