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Eike está em Bangu e deve delatar é a manchete do Globo

O empresário que chegou a ser o mais rico do país dormiu a noite passada em Bangu 9, presídio que abriga policiais envolvidos com crimes e onde ficará por tempo indeterminado. Acusado de pagar propina de US$ 16,5 milhões ao ex-governador Sérgio Cabral, também preso, Eike Batista se entregou ontem à PF após viajar na classe executiva de um voo noturno de Nova York ao Rio. Ele contou a HENRIQUE GOMES BATISTA que está disposto a colaborar com a Justiça e que precisa “passar as coisas a limpo”, dando indicação de que pretende tentar um acordo de delação premiada, embora sua defesa tenha dito que ainda é cedo para falar nisso. O Ministério Público viu favorecimento a Eike na escolha do presídio. Eike Batista não sabia o que esperar da prisão que o aguardava assim que colocasse os pés no Rio, mas seguia cheio de ideias para, pretensamente, resolver o futuro do país. Com a mesma tranquilidade dos demais passageiros do voo 973, da American Airlines, que saiu de Nova York no domingo em direção ao Rio, o empresário seduzia com simpatia e paciência e, como se habituou a fazer no mundo dos negócios, até convenceu: conquistou a solidariedade dos brasileiros na aeronave, algo raro em tempos de panelaços e protestos contra tudo isso que está por aí.

O Brasil precisa de mais engenheiros — disse ele, que também defendeu uma solução “holística” para o país e condenou os “puxadinhos” feitos com interesses diversos em todo o país.

Menos de uma hora antes do avião pousar no Galeão — em voo acompanhado pelo GLOBO, que viajou ao lado do empresário durante todo o trajeto —, um passageiro da classe executiva parou na poltrona do empresário para falar sobre uma ideia de negócios. Eike, gentilmente, declinou do assunto. Poucas horas depois, o empresário teria que “declinar” de seus bem tratados cabelos, raspados no IML, para que o novo morador da penitenciária de Bangu 9 — até pouco tempo habituado à sala ornamentada por carros esportivos, como a famosa Lamborghini — ficasse no mesmo modelito de seus novos colegas, a maior parte deles policiais presos, muitos integrantes de milícias.

Os mais jovens tiravam selfies com o investigado por lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa, como se ele fosse um superstar. E, como se não estivesse sendo apontado como integrante de um esquema de corrupção, resolveu defender a Lava-Jato.

O Brasil que está nascendo agora será diferente — vaticinou, carregando no otimismo, o mesmo que vendia, em doses cavalares, seus projetos multibilionários, hoje em recuperação judicial ou simplesmente estagnados.

O Brasil está cheio de jovens competentes — usou outra frase vazia, mas que transferiu certa esperança aos seus ouvintes no saguão do aeroporto novaiorquino. — O Brasil é um país de oportunidades espetaculares.

Eike, você é um guerreiro, o Brasil precisa de pessoas como você. Força — afirmou um senhor de meia idade.

Meu pai sempre disse o senhor é o maior empresário do país. Posso tirar uma foto para enviar para ele ? — questionou a jovem carioca.

Esse condescendência, de certa forma inesperada, foi crescente: quanto mais as pessoas pediam fotos no salão de embarque, mais Eike se empolgava. E, fazendo seus diagnósticos e prognósticos para o futuro do Brasil, conquistava a plateia, que concordava com suas ideias acenando com a cabeça.

O país sairá fortalecido, com uma nota muito melhor — comentou, não deixando claro se sua prisão vai ajudar nesta depuração ética.

E, assim, o Eike foragido voltava a ser o velho Eike megalomaníaco, disposto a fazer “grandes coisas” pelo Brasil. Ele acredita que tem um legado de US$ 40 bilhões em investimentos em quase duas décadas e, sem modéstia, questiona:

Você tem noção de quanto eu já fiz pelo Brasil?

Em um discurso exageradamente baseado em dados técnicos que, de certa forma, lembram um pouco as apresentações da ex-presidente Dilma Rousseff, Eike trata de temas como correntes de marés, dragagem, logística e negócios. Ele se empolga ao falar de seus projetos, como o Porto do Açu ou o Superporto do Sudeste, que foram assumidos por outras companhias. Para um desavisado, poderia até parecer que seguem como suas propriedades:

Volta lá agora para você ver como eles estão — disse ao GLOBO.

Mas sua nova realidade, de preso, era um banho de água fria. Questionado sobre qual será o impacto da restrição de liberdade em seus negócios, o último, uma suposta pasta dental revolucionária, franze o rosto e diz:

Sim, esta nova realidade vai afetar meus planos. Não tem como dizer que não — afirmou Eike.

O protesto solitário de um passageiro, que gritou que o Eike agora vai tomar “catuaba selvagem” com Sérgio Cabral, não encontrou ressonância. Nenhum outro protesto se ouviu, nem mesmo quando os passageiros, após 10 horas de voo, tiveram que esperar uns minutos a mais antes de sair de seus assentos para que a Polícia Federal prendesse o ex-bilionário. Esta reação seria impensável se no voo estivesse um dos políticos acusados de corrupção.

Em tom arrogante, afirmava que não errou. Disse que vai “passar o país a limpo”, o que fez alguns acreditarem que ele fará delação e vai contar tudo o que sabe. Mas, em se tratando de Eike, pode ser apenas mais uma frase de efeito, mais uma promessa vazia.

É muito bonito o que ele está fazendo, ele está voltando para o país para encarar os fatos, não está fugindo — disse um outro passageiro que pediu para não dar seu nome.

Eike foi um passageiro discreto. Não comeu — apenas bebeu leite — dormiu praticamente todo o voo e pediu para que os comissários não o acordassem na hora do café da manhã.

Embora tenha dito que não falaria nada sobre a investigação, pois está “sub judice”, Eike deu pistas sobre como analisa as acusações. Mesmo sem citar nomes, disse que o esquema de corrupção é maior do que se imagina e que não era ele quem oferecia carona para governantes em seu avião, “os políticos que o pressionavam a fazer isso”. Ele afirmou ainda que, em geral, os empresários são vítimas dos políticos corruptos. E disse, com todas as letras, que acredita que não errou.

Eike chegou ao aeroporto de tênis preto com detalhes verdes, camisa de brim sobre uma camiseta cinza e com um Blaser preto, onde exibia um broche dourado que fazia lembrar o sol que era marca de suas empresas quando estava à frente da EBX.

Por causa do assédio, entrou erroneamente na fila de um outro avião, no portão ao lado, que estava indo para Hong Kong. Quando viu o repórter do GLOBO o seguindo para o portão errado, brincou, confirmando o bom humor que estava:

É aquela história, uma mula seguindo outra mula — disse, rindo.

Nos últimos minutos de liberdade, disse que não sabia exatamente onde seu filho mais novo estava:

Eles estavam em férias, esquiando no Colorado, mas não sei exatamente onde eles estão hoje — disse ele, que passou muito tempo, entre embarque e voo, mexendo em seu celular.

Em um raro momento em que admitiu uma certa insegurança, foi direto ao dizer o que esperava depois do voo que marcaria o seu destino:

Eu não tenho a mais vaga noção do que acontecerá.

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