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Eike: ‘É hora de ajudar a passar as coisas a limpo’ é a manchete do Globo

O empresário Eike Batista embarcou ontem à noite no voo 973 da American Airlines para se entregar à Polícia Federal (PF) hoje de manhã no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio. Na sala de embarque do aeroporto JFK, em Nova York, Eike disse ao GLOBO, que retorna ao Brasil para colaborar com a Justiça:

O sentimento é que tem que se mostrar o que é. Está na hora de eu mostrar, ajudar a passar as coisas a limpo. Eu estou voltando e (vou) responder à Justiça, como é o meu dever.

O empresário negou que já tenha negociado com algum advogado a possibilidade de propor um acordo de delação premiada e evitou dizer se é culpado nas acusações a que responde.

Não, não (negociação para delação premiada). Estou à disposição da Justiça. Estou me entregando — pontuou.

Eike afirmou ainda que não cogitou ir para a Alemanha — ele tem passaporte e cidadania alemã —, como foi especulado pelas autoridades brasileiras assim que se soube que ele havia deixado o Brasil.

Não. Eu venho sempre para Nova York a trabalho.

Questionado se errou em sua atuação, respondeu:

Se foram cometidos erros, você tem que pagar pelos erros que você fez. É assim, né?

Ao ser perguntado se considera que os empresários são vítimas do sistema de corrupção que está sendo desvendado, Eike concordou:

São, né. As regras têm que ser claras e transparentes, e o que está acontecendo vai permitir que o Brasil seja um país em que todo mundo vai querer investir. Por isso está passando essa fase difícil, mas na frente todo mundo vai dar uma nota diferente para o Brasil em termos de transparência.

Eike disse ainda que acha a Operação Lava-Jato “espetacular.”

Logo após entrar na sala de embarque, Eike postou-se em um canto, ao lado de cadeiras vazias de engraxate e não largou o celular. Até então, poucos notavam sua presença, pois estava ocultado por uma pilastra com um chamativo letreiro do musical Chicago, que, ironicamente, passa no submundo do crime.

Eike não usou a sala VIP e, mais tarde na entrevista, disse que não costuma fazê-lo. Após um tempo no corredor, começou a ser reconhecido. Eike posou para algumas selfies. Alguns passageiros o elogiavam e, embora dissessem não querer estar na pele dele, destacavam seu empreendedorismo. Outros o atacavam. Um chegou a zombar:

E aí, vai tomar Catuaba Selvagem lá com teu colega (Sérgio) Cabral?

Muitos brasileiros tiravam fotos à distância e um casal alertava antes do embarque para um grupo de jovens que queria entrar no avião bradando: “Uh, uh, uh, direto pra Bangu”.

No salão de embarque, Eike admitiu não ter ensino superior completo. Segundo ele, após completar dois anos de estudo, “saiu para trabalhar, para ganhar dinheiro”. Durante a conversa, o empresário elogiou reiteradas vezes o presidente americano Donald Trump e o prefeito de São Paulo, João Dória, ambos empresários que entraram para a política no ano passado.

Considerado foragido após não ter sido encontrado em sua casa, na Zona Sul do Rio, na última quinta-feira, Eike assumiu, junto a autoridades brasileiras, o compromisso de voltar ao país. A PF decidira que, se o empresário não cumprisse o acordo, pediria imediatamente a prisão dele nos Estados Unidos.

Investigadores à frente do caso no Rio confirmaram, ontem, que esperavam que o empresário se apresentasse hoje às autoridades. Eike teve seu pedido de prisão preventiva expedido na quintafeira em decorrência das apurações da Operação Eficiência, desdobramento da Lava-Jato. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, por, segundo o Ministério Público Federal (MPF), ter pago US$ 16,5 milhões em propinas no exterior ao ex-governador Sérgio Cabral.

A demora das autoridades brasileiras em conseguir que Eike fosse preso em Nova York, uma das cidades mais conhecidas pelo alcance de seu policiamento, não foi gratuita. Na verdade, em nenhum momento, os investigadores ou o governo brasileiro pediram que o empresário fosse de fato preso pela polícia americana.

Ao contrário de alguns países que iniciam buscas tão logo o nome do procurado seja incluído na lista da Interpol, os Estados Unidos exigem que a agência internacional ou o governo do país interessado na prisão faça um pedido específico no ministério público local — um juiz precisa deferir a solicitação. A PF, deliberadamente, não deu este passo. O objetivo era conseguir que Eike se entregasse de forma negociada, o que vai ocorrer hoje.

Segundo autoridades brasileiras, a negociação é vantajosa, uma vez que a prisão do empresário no exterior exigiria um longo processo de extradição ou deportação, que poderia durar meses.

Nos últimos dias, após ser deferido o pedido de prisão no Brasil, as negociações para que Eike se entregasse tiveram idas e vindas. Na manhã de sábado, autoridades brasileiras chegaram a acertar com a defesa do empresário que ele embarcaria ainda naquela noite para o Rio de Janeiro, onde se entregaria na manhã de ontem. O empresário, no entanto, recuou e pediu mais um dia.

Na sexta-feira, o advogado de Eike, Fernando Martins, reuniu-se com integrantes da força-tarefa responsável pelas investigações dos desdobramentos da Operação Lava-Jato no Rio, composta por representantes do MPF e da PF. Um dos participantes da reunião disse ao GLOBO que o grupo sustentou que não havia nada que pudesse ser feito e que o empresário deveria se entregar, já que tem contra si um mandado de prisão preventiva. Após o encontro, procuradores afirmaram que não negociaram condições para que Eike se entregasse. O advogado do empresário afirmou, em nota, que não estabeleceu condições para que ele se apresentasse.

Assim que desembarcar no Rio, Eike vai prestar depoimento e, em seguida, seguirá para o Instituto Médico Legal (IML). Ainda não há definição sobre o destino do empresário no sistema carcerário.

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