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Chefia do Senado testa fidelidade de Eunício ao governo de Michel Temer, diz a Folha

Eunício Oliveira (PMDB-CE) estava em seu gabinete quando um colega petista telefonou para fazer um pedido. Dilma Rousseff, ainda presidente, faria dali a alguns minutos um discurso contra o avanço do impeachment e queria aliados ao lado. O senador ouviu o recado. E decidiu continuar em sua sala.

Ele era, até então, um dos interlocutores de Dilma dentro do PMDB. Resistia à cassação da petista. Só virou a chave quando o afastamento dela se tornou iminente.

O presidente Michel Temer é há mais de uma década o principal mandatário do PMDB. Eunício comanda há 14 anos a tesouraria do partido. Isso faz dos dois grandes amigos? Não. Aliados? Sim, especialmente quando os interesses convergem.

Favorito para assumir esta semana a presidência do Senado, o senador cearense passará a ter papel central no destino do governo. Seu histórico de oscilações preocupa aliados do presidente.

Um exemplo: em 2015, após ser escolhido presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) recebeu Eunício e outro cacique do PMDB, o senador Romero Jucá (RR), em casa. “A partir de agora, sou um eleitor”, disse o alagoano. O recado era claro: quem quisesse se viabilizar precisaria de seu apoio.

Em 2016, quando parte do PMDB apostou tudo no impeachment, Renan resistiu. Eunício também, embora tenha optado por uma linha mais leve e nunca atacado Temer abertamente.

Para mostrar que sempre esteve ao lado do presidente, Eunício gosta de contar que, quando ele ainda era vice, ia lhe fazer companhia aos domingos no Palácio do Jaburu, onde degustavam uma sopa –que ele descreve como um pouco insossa.

MILHÕES

Hoje alinhado a Temer e a Renan, Eunício deslanchou como opção para a presidência do Senado após a conjunção de uma série de fatores.

Apesar de ter sido citado em uma delação da Lava Jato –que menciona um repasse de R$ 5 milhões para sua campanha– ainda não responde a inquérito, ao contrário do que ocorre com outros nomes de seu partido.

O fato de ter passado quase ileso pela operação até aqui, mesmo sendo tesoureiro do PMDB, é alardeado por aliados dele como um ativo.

Dono de dezenas de propriedades e de empresas de prestação de serviços e transportes de valores, o senador cearense não esconde que é rico. Em 2014, quando concorreu a governador do Ceará, declarou patrimônio de R$ 99 milhões.

É possível perceber a entrada de Eunício no plenário pelo cheiro de seu perfume, Polo, da Ralph Loren. Ele sempre exibe ternos bem cortados, sapatos e gravatas importadas. No punho, um Rolex.

Apara os cabelos há 15 anos em um salão do Lago Sul, bairro nobre de Brasília, o mesmo em que reside. Sua casa fica de frente para o lago Paranoá. Um terreno no local pode chegar a custar cerca de R$ 7 milhões.

Ele não usa verba parlamentar para voos entre seu Estado e Brasília. Tem o próprio jatinho. Seus principais rivais estão no Ceará. Ciro Gomes, ex-governador, é um desafeto declarado.

Em um vídeo divulgado durante a campanha de 2014, Ciro diz que Eunício “usou o mandato para traficar influência junto a órgãos federais”, inclusive a Petrobras.

Em entrevista à Folha na sexta (27), Eunício se defendeu de detratores e delatores. “As pessoas criam, inventam e até mentem para poder ter a delação”, afirmou.

“Desde 1998 [quando se elegeu deputado pela primeira vez] eu não boto meus pés em empresa”, disse. “Vivo 24 horas isso aqui [Senado] e muito pouco a minha família, que reclama.”

“Semana passada me senti o pior dos homens. Tenho duas netas e elas foram pela primeira vez para a Disney. Eu não estava para tirar as fotos, que é o que fica… Esse pode ser meu último mandato.”

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