Noticias

Revelações dos marqueteiros é o título de reportagem da revista Veja sobre delação de João Santana e Duda Mendonça

Os marqueteiros João Santana e Duda Mendonça já foram amigos e sócios. Duda elegeu Lula presidente e trabalhou para diversas campanhas do PT até que foi isolado do poder em 2005, quando, no auge do escândalo do mensalão, confessou que recebera caixa dois. A queda de Duda alavancou a carreira de Santana. O aprendiz ocupou o lugar do mestre, transformado em oráculo do marketing no Brasil e no exterior. As investigações da Lava-Jato uniram novamente os dois publicitários, só que numa situação adversa. João Santana foi preso acusado de receber dinheiro ilegal da Odebrecht. Encurralado, passou a negociar uma delação com a Procuradoria-Geral da República. No fim do ano passado, Duda

entrou em pânico quando soube que a mesma Odebrecht fecharia um acordo de colaboração. Achava que poderia amargar o mesmo destino de seu antigo aprendiz. O marqueteiro também procurou o Ministério Público. Tanto um como o outro têm muito a revelar. Ambos ajudaram a eleger e reeleger presidentes, governadores, senadores, deputados e prefeitos, de diferentes partidos, em diferentes países. De 2002 a 2014, ambos sustentaram o PT no poder. VEJA teve acesso aos segredos que eles pretendem contar. Em sua proposta de delação, Santana e sua mulher, Mônica Moura, acusam a ex-presidente Dilma de vazar de dentro do Planalto informações sigilosas sobre o andamento da Lava-Jato, enquanto Duda conta, entre outras coisas, como as maiores empreiteiras do país interferiram clandestinamente nas eleições de países como Chile e Colômbia.

O PLANALTO INFORMAVA JOÃO SANTANA SOBRE AS INVESTIGAÇÕES DA PF

Dilma Rousseff é investigada pela Procuradoria-Geral da República por tentar atrapalhar a Operação Lava-Jato. João Santana promete entregar a prova definitiva de que isso realmente ocorreu. No fim de 2015, o marqueteiro e sua mulher, Mô-nica Moura, estavam fora do Brasil quando receberam uma notícia assustadora. Por meio de uma mensagem, localizada dentro de um e-mail cifrado, o casal foi avisado de que seria preso. Naquele momento, a Polícia Federal e o Ministério Público tinham os detalhes das movimentações financeiras das contas secretas do publicitário, enviadas pelas autoridades suíças, e já monitoravam as suas linhas telefônicas. Os investigadores também haviam encontrado um manuscrito na casa de um lobista que indicava o repasse de dinheiro da Odebrecht para empresas controladas pelo marqueteiro no exterior. Dilma ainda era presidente, e a revelação de que sua campanha havia sido financiada com dinheiro ilegal de uma das empreiteiras do petrolão poderia apeá-la do poder. Até aquele momento, nenhuma investigação da Lava-Jato chegara tão perto do coração do governo. João Santana e sua esposa, por sua vez, temiam o pior. E o pior veio em fevereiro de 2016, mas o casal estava preparado. A mensagem eletrônica que informava que eles estavam prestes a ir parar atrás das grades partiu do Planalto, por intermédio da então presidente da República, Dilma Rousseff. Essa revelação foi feita por João Santana aos procuradores do grupo de trabalho da Lava-Jato, em sua proposta de delação premiada. A época do suposto vazamento, o Ministério da Justiça, ao qual a Polícia Federal é subordinada, era comandado por José Eduardo Cardozo, aliado e advogado de Dilma. Cardozo já havia sido acusado pelo ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, de repassar informações privilegiadas sobre a Lava-Jato para alguns investigados. “Ventos frios sopram de Curitiba” era a senha que ele usava para avisar que novas operações e prisões ocorreriam. Agora, descobre-se que o esquema de vazamentos era maior e mais sofisticado e, se comprovado, também criminoso, como se verá a seguir.

O ENCONTRO SECRETO NO PALÁCIO DA ALVORADA

O endereço do e-mail cifrado utilizado para vazar clandestinamente informações da Lava-Jato foi criado na presença de Dilma Rousseff e dentro do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República. Um dos capítulos da delação do casal trata especificamente de uma reunião ocorrida em Brasília, onde o esquema de vazamento foi combinado. Segundo Mônica Moura, já no ápice da Lava-Jato, ela foi convidada para um encontro secreto com Dilma. A presidente estava preocupada com o avanço das

investigações, principalmente a parte que envolvia João Santana. As autoridades se aproximavam perigosamente de um dos mais bem guardados segredos do PT. 0 Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), do Ministério da Justiça, já havia recebido informações sobre a movimentação financeira das empresas offshore que João Santana e a esposa mantinham em paraísos fiscais. Ficou combinado que a presidente se encarregaria de avisar o casal sobre o desenrolar da investigação em Curitiba.

Para pôr o plano em prática, de maneira segura e sem deixar rastros, foi criado, dentro da biblioteca do Alvorada, um e-mail com uma senha compartilhada entre Dilma, Mônica Moura e o marqueteiro. Ficou acordado que somente os três teriam acesso ao endereço eletrônico. Para evitar interceptações, as mensagens não eram enviadas, ficavam arquivadas numa área restrita da caixa de e-mails. Para provar o que diz, o casal se comprometeu a entregar a cópia de uma dessas mensagens cifradas fazendo referência à investigação da Lava-Jato e um depoimento de uma testemunha que acompanhou Mônica ao Palácio, entre outras evidências. Em conversa com os procuradores, o marqueteiro João Santana disse que não sabe se foi a ex-presidente quem redigiu o alerta de prisão, mas confirma que o aviso foi redigido pelo Planalto, por Dilma ou por um assessor de confiança da presidente. Procurada, Dilma não foi localizada.

A INTERFERÊNCIA CLANDESTINA NA ELEIÇÃO CHILENA

Ao mesmo tempo que o PT tentava fortalecer a aliança com políticos da América Latina, ampliando o seu raio de influência, as empreiteiras envolvidas no petrolão expandiam os seus negócios nos países vizinhos. Duda pegou carona nessa investida simbiótica. Em 2013, o marqueteiro foi indicado pelo PT e pela construtora OAS para coordenar a campanha presidencial de Marco En-ríquez-Ominami no Chile. A empreiteira bancou despesas da campanha do candidato mesmo sabendo que as chances dele eram remotas. Por quê? Um investimento futuro, de acordo com Duda Mendonça. Marco Ominami era considerado um político promissor. A construtora, inclusive, pôs à disposição de Ominami uma aeronave que realizou uma viagem de Santiago para São Paulo, onde foi feita uma sessão de fotos com a equipe de Duda, responsável pela estratégia de marketing. 0 publicitário relata que a OAS também financiou a campanha da candidata Michelle Bachelet, eleita presidente do Chile. O depoimento que Du-da pretende dar ao Ministério Público une pontos importantes da investigação. Mensagens descobertas pela polícia já revelaram que, em novembro de 2013, às vésperas da eleição, Léo Pinheiro, presidente da construtora, acertou detalhes de uma viagem de Lula ao Chile. “0 Brahma quer fazer palestra dia 24/25 ou 26/11 em Santiago”, escreveu Léo Pinheiro. “0 avião é por nossa conta”, respondeu o diretor da área internacional da OAS, Augusto César Uzeda. “Brahma” era como a empreiteira tratava o ex-presidente. Em novembro de 2013, Lula viajou para Santiago num jato fretado pela OAS, deu uma palestra paga pela OAS e se encontrou com Michelle Bachelet. No mês seguinte, um consórcio integrado pela empreiteira venceu uma licitação no país. As pesquisas apontam Marco Ennquez-Ominami como favorito para suceder a Michelle Bachelet nas próximas eleições, marcadas para o fim do ano.

O DINHEIRO SUJO NA CAMPANHA DA COLÔMBIA

O projeto de expansão do PT e das maiores empreiteiras brasileiras pela América Latina continuou a todo o vapor em 2014. Naquele ano, antes das eleições no Brasil, um executivo da Odebrecht em São Paulo procurou Duda Mendonça para informar que o candidato Oscar Zuluaga, afiançado pelo então presidente Álvaro Uribe na Colômbia, tinha interesse em contratar os serviços do mar-queteiro. 0 publicitário conta que chegou a se reunir em São Paulo com David Zuluaga, filho do candidato colombiano, e com um diretor da construtora brasileira. Após esse encontro, Duda fez uma proposta de 4,3 milhões de dólares para fechar contrato, mas o valor foi considerado elevado peIo comitê de Oscar Zuluaga. A Odebrecht, então, entrou na jogada e se ofereceu para custear as despesas da campanha com o marqueteiro por meio de depósitos em contas bancárias no exterior. 0 negócio foi fechado. Zuluaga perdeu no segundo turno para o seu rival Juan Manuel Santos. Ao término da campanha, segundo Duda, a empreiteira transferiu apenas 1,6 milhão de dólares para uma de suas contas no exterior. No fim do ano passado, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos informou que funcionários do governo de Uribe receberam 11 milhões de dólares em propinas pagas pela Odebrecht. 0 governo colombiano cogita expulsar a empreiteira do país.

O ACERTO DE 15 MILHÕES COM A ODEBRECHT

Há um capítulo nos relatos de Duda Mendonça que pode explicar a gênese da supremacia da Ode-brecht nos governos petistas. Nas eleições municipais em 2004, Duda Mendonça trabalhou para os candidatos petistas Marta Suplicy, em São Paulo, Fernando Pimentel, em Belo Horizonte, João Paulo, no Recife, e Ângelo Vanhoni, em Curitiba. Essas campanhas deixaram uma divida de 15 milhões de reais com o publicitário. Ao cobrar a fatura de Delú-bio Soares, o tesoureiro do partido, Duda foi orientado a procurar o então ministro Antônio Palocci.

O encontro aconteceu em Brasília. Palocci disse que o marqueteiro deveria acertar as contas com o empresário Emílio Odebrecht. Duda, então, reuniu-se com o dono da empreiteira e passou o recado do ministro da Fazenda. Ainda segundo seu relato, Emílio disse que toparia pagar a dívida desde que Palocci fizesse esse pedido pessoalmente. Emílio e Palocci se encontraram depois num hangar do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e acertaram que a Odebrecht quitaria o débito numa conta no exterior. Palocci nega a acusação.

DILMA A DUDA: “NÃO VOU ESQUECER DE VOCÊ”

De acordo com Duda Mendonça, a presidente Dil-ma Rousseff tinha conhecimento de como o PT fazia para liquidar as suas dívidas de campanha -ou seja, na base da “canetada”. Em 2010, o mar-queteiro prestou serviços para as campanhas de Hélio Costa, candidato pela chapa PMDB-PT ao governo de Minas Gerais, e do petista Fernando Pimentel, para o Senado. Após a derrota dos dois nas urnas, o marqueteiro cobrou uma dívida de 6 milhões de reais, o equivalente à metade do custo total das campanhas dos dois candidatos. Aflito, Duda insistiu com Pimentel para que fosse saldada a fatura em aberto. Na ocasião, o petista disse para o marqueteiro que não tinha como quitar os 6 milhões de reais e que, numa eventual vitória de Dilma Rousseff no segundo turno da eleição presidencial, a pendência financeira certamente seria resolvida. Conhecedor e parceiro de longa data dos mecanismos heterodoxos que o PT usava para financiar suas dívidas de campanha, o marqueteiro conta que tentou receber logo depois de terminado o pleito. Insistiu tanto para receber o dinheiro de Fernando Pimentel que o pe-tista colocou Dilma Rousseff ao telefone para resolver a questão. Segundo o relato de Duda Mendonça, a então candidata a presidente disse: “Duda, eu ainda não tenho a caneta na mão, mas quando eu tiver não vou esquecer de você”. No capítulo que trata desse assunto, os advogados de Duda fazem uma ressalva curiosa: a dívida jamais foi paga e, estranhamente, também não foi cobrada. Pimentel nega a acusação.

O CAIXA DOIS DO PMDB EM SÃO PAULO

O caixa dois da Odebrecht não abasteceu somente as campanhas do PT e de seus aliados na América Latina, mas também o PMDB em São Paulo. Nas eleições em 2014, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, convidou Duda Mendonça para coordenar a sua campanha pelo PMDB para o governo de São Paulo. O marqueteiro conta que, ao longo da disputa eleitoral, foi informado por Skaf de que havia uma pressão do PMDB, especialmente do atual líder do partido na Câmara, Baleia Rossi, para que fosse contratada uma empresa do irmão do parlamentar, o empresário Paulo Luciano Tenuto Rossi, conhecido como Palu. Depois de discordar, Duda acabou topando produtora Ilha Produções, de Palu. De acordo com o publicitário, a Odebrecht assumiu o compromisso de pagar 10 milhões de reais em caixa dois para a campanha de Skaf. Desse valor, 4 milhões seriam destinados à Ilha Produções, cujo dono deveria retirar o dinheiro num hotel em São Paulo mediante a apresentação de uma senha, e 6 milhões a Duda. Essa grana referente aos serviços prestados pelo marqueteiro foi negociada pelo presidente Michel Temer e pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, com o empreiteiro Marcelo Odebrecht, num jantar no Palácio do Jaburu, em maio de 2014, segundo o delator Cláudio Melo Filho, lo-bista da empreiteira em Brasília. Skaf e Palu negam que tenham recebido caixa dois.

OS “CLIENTES” DA EMPREITEIRA

A Odebrecht bancou, por fora, outras três campanhas políticas coordenadas por Duda. Em 2010, o marqueteiro ajudou o petista Lindbergh Farias a se eleger para o Senado. 0 relato do publicitário confirma a revelação feita na delação do diretor da Odebrecht Leandro Andrade que admitiu que a construtora desembolsou 2,5 milhões de reais para bancar as despesas de Lindbergh com Duda em 2010. Esses recursos saíram do departamento de propinas da empreiteira, que irrigou outras campanhas país afora. Em 2014, Duda foi convidado para coordenar a campanha de Sandoval Cardoso ao governo do Tocantins e de Eduardo Gomes para o Senado. 0 marqueteiro combinou que receberia 13 milhões de reais. Em 2015, as dívidas de caixa dois das campanhas do Tocantins, de São Paulo e da Colômbia somavam quase 20 milhões de reais. Para liquidar com essa fatura, a Odebrecht assinou com Duda um contrato fictício de prestação de consultoria de gestão de crise e arquitetou uma transação imobiliária com a DAG Construtora, sua parceira de negócios escusos, que “comprou” um terreno do marqueteiro no sul da Bahia. Sandoval e Gomes negam a acusação.

Deixe um Comentario