Noticias

O poder invisível é o título da entrevista de Eunício Oliveira nas páginas amarelas na Revista Veja

poder invisível entrevista Eunício Oliveira Revista Veja

SE TUDO TRANSCORRER como combinado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) será eleito nesta quarta-feira para comandar o Congresso pelos próximos dois anos. O senador é um político que se pode chamar de “tradicional”, sucessor de um projeto de poder também tradicional e conhecido. Ele se elegeu deputado federal em 1998 e, desde 2011, ocupa uma das cadeiras do Senado. Nesse período, aproximou-se de dois exponentes do partido, o senador Renan Calheiros e o ex-senador José Sarney. Junto com o também senador Romero Jucá, Eunício, Renan e Sarney são conhecidos como os “caciques do PMDB” — um grupo que, pela capilaridade e influência, tem o condão de ditar para que lado os ventos da política devem soprar. Um grupo que comanda o Congresso há mais de três décadas e esteve associado a todos os governos desde a redemocratiza-ção. Nesta entrevista a VEJA, o senador diz que, caso seja eleito, vai ter uma atuação discreta, dedicar-se aos projetos que tratam das reformas econômicas e recuperar a imagem do Parlamento.

O fato de o senhor ter sido citado por um delator como beneficiário de um esquema de corrupção no Congresso não lhe cria constrangimentos? Vou dizer com muita tranqüilidade: sei o que fiz e sei o que não fiz durante toda a minha vida. Sei o que fiz e o que não fiz também na vida pública. Portanto, estou absolutamente tranqüilo, assim como devem ficar tranqüilos os meus pares, porque citações sem provas são apenas citações. Estas mãos nunca receberam dinheiro que não fosse correto, honesto, legítimo e tirado do próprio suor do rosto.

Certa vez o senhor disse que enxergava um certo glamour no cargo de presidente do Senado. O que é esse glamour exatamente? A palavra adequada, na verdade, não é glamour, mas responsabilidade. É a oportunidade de presidir um dos três po-deres da República. Sou um defensor do equilíbrio federativo. Sou democrata, acredito que tudo tem de ser construído com diálogo. Vejo a presidência do Senado como a oportunidade de um garoto, vindo

lá de uma cidade pequena do Nordeste, construir pautas que desenvolvam o Brasil, restabeleçam o diálogo com a sociedade e resgatem a imagem do Parlamento.

Como isso é possível em um país em que políticos mal podem andar nos aeroportos?

Não tenho dúvida de que a classe política está sendo fortemente contestada pela sociedade. Como não vamos abrir mão da democracia no Brasil, o grande desafio é reconstruir as relações do Parlamento com as ruas. O melhor caminho é o diálogo, a busca de entendimento entre os poderes e a

busca de sintonia com a sociedade. Isso se constrói com pacto federativo, a partir da redistribuição de recursos e do equilíbrio financeiro entre estados e municípios brasileiros, para que as pessoas reconheçam que o Parlamento está cumprindo seu papel. O país precisa voltar a crescer, adotar uma pauta econômica que destrave o setor produtivo, que desburocratize e modernize a legislação para impulsionar o crescimento.

Se eleito, o senhor vai suceder a Renan Calheiros, seu aliado, que deixa o cargo depois de episódios controversos e acusações de corrupção. Não quero falar de pessoas. Ele cumpriu um papel como presidente. Agora, cada parlamentar tem o seu estilo de atuar. O meu é fazer as coisas dentro da regra, da discussão, da busca do entendimento e do diálogo. Não tenho nenhuma preocupação de chamar o Poder Executivo ou o Poder Judiciário ao diálogo. Não terei problema de discutir com esses po-deres ou com o Ministério Público as matérias que são importantes. Isso não quer dizer subordinação. Os poderes são independentes e harmônicos entre si. Um poder não pode se sobrepor ao outro. Os poderes podem e devem dialogar, e isso é o que vou fazer.

Qual a opinião do senhor sobre a prisão em segunda instância? Sou um defensor da Constituição. Não coube ao Congresso deliberar sobre esse assunto. Se a Suprema Corte entendeu que a segunda instância é o melhor momento para se proceder à prisão, não sou eu que vou fazer algum julgamento de valor. Vou me preocupar apenas com temas que estejam na pauta do Senado.

O senhor pretende levar adiante o projeto de abuso de autoridade, defendido por Renan e considerado uma ameaça à La-va-Jato? O problema é o momento, a oportunidade da discussão e o diálogo feito nessa discussão. Nas questões polêmicas que envolvam outros poderes, inclusive nessa matéria, vou buscar o diálogo para que se possa construir o entendimento. Ninguém em sã consciência vai defender abuso de autoridade de quem quer que seja.

Parlamentares envolvidos no petrolão defendem abertamente a aprovação de um projeto que anistie o caixa dois.

Essa matéria não está em pauta no Senado. Quando chegar, e se chegar, vamos analisá-la. Mas penso que não é hora de fazer confrontos ou discussões nesse sentido.

Antes da Lava-Jato, era possível disputar uma eleição sem recorrer a esquemas de financiamentos ilegais? Não sei. Era. Acho que sim. Era possível, sim. Eu, por exemplo, não fiz caixa dois. Mas lembro que foi o Congresso que modificou a lei e proibiu doação de empresas privadas. Essa discussão sobre financiamento de campanhas, o tempo é que vai aperfeiçoar. Tem de ser uma questão clara, objetiva e transparente, ninguém tem dúvida. Antes era permitido pela legislação. Então, quem recebeu recurso de empresa privada legitimamente não pode ser acusado agora de ter recebido propina.

O senhor foi tesoureiro nacional do PMDB durante boa parte do período mais intenso de

funcionamento do petrolão. Nunca percebeu que integrantes do seu partido prosperavam financeiramente saqueando os cofres da Petrobras? A legislação permitia, legitimamente, que qualquer candidato recebesse doações regulares de empresas, depositadas em banco oficial, que era o Banco do Brasil, na conta do partido ou do candidato. Era regra. Não tinha nada de errado na regra. Agora, o que acontecia fora desse sistema não tem como o tesoureiro ou o partido saber. Até porque essa arrecadação era

feita pelos próprios candidatos. Tudo o que passou pelo partido passou corretamente.

Durante a campanha ao governo do Ceará, em 2014, o senhor foi alvo de acusações do PT e teve uma de suas propriedades invadidas pelo MST. Hoje, PMDB e PT estão aliados para elegê-lo… O Senado tem uma regra. O que o PMDB está fazendo é cumprir a regra. O PT apenas está tendo o direito de exercer a proporcionalidade. O PT não foi banido da Casa. Ele tem participação efetiva proporcional ao tamanho de sua bancada. Isso não significa nada fora do Senado. Não existe negociação ou sinalização em torno de questões que aconteceram com o PT. As disputas políticas nos estados e a disputa política nacional vão permanecer, independentemente da composição feita na Casa.

O senhor sempre foi um aliado da presidente Dilma Rous-seff. No processo de impea-chment, porém, o senhor votou pela cassação da petista. O que mudou? O meu partido

era aliado. Como disse, eu respeito a regra e a disciplina de um único partido político, o PMDB. O meu partido era aliado da presidente Dilma. Depois, ela perdeu a condição de governabilidade. Ao perder essa condição, estava na vice-presidência um membro do PMDB. Mas não foi o meu partido que fez o impea-chment. O processo foi votado por dois terços da Câmara e dois terços do Senado. Foi o Congresso que, dentro da Constituição, votou o impeachment da presidente Dilma.

O presidente Michel Temer fez algum pedido ao senhor, caso seja eleito presidente do Senado? Nesta semana, eu marquei uma audiência com o presidente Michel Temer. Fui comunicar que havia um sentimento dentro da bancada do PMDB em torno do meu nome para a eleição à presidência da Casa. O presidente não pediu nada.

Como o senhor pretende conduzir a agenda de reformas do governo? Temos de preservar a Previdência. Vi há poucos dias uma declaração de que a reforma não poderia ser modificada no Congresso. Os poderes são harmônicos e independentes entre si. Tanto na questão da Previdência quanto na discussão trabalhista, é óbvio que vamos dialogar com as entidades de classe e com o governo. Mas, nos dois casos, faremos a reforma possível. Nada entra no Congresso e sai como entrou. Mudar o texto, debater e aperfeiçoar as propostas que serão votadas é próprio dessa Casa.

O senhor estará no comando do Congresso durante o período de eleições presidenciais mais conturbado dos últimos tempos para a classe política. O senhor defende a idéia de que o PMDB tenha candidatura própria à Presidência em 2018? Não. Sinceramente, é natural que todo partido político almeje ter candidatura própria, mas nós temos alianças importantes, companheiros importantes e, no momento adequado, iremos fazer essa discussão.

A chapa Dilma-Temer está sob julgamento no TSE. Qual a opinião do senhor sobre a tese de separação de contas? Não cabe a mim fazer juízo de valor sobre isso. Cabe aos ministros do TSE.

O senhor é um dos políticos mais ricos do Congresso. A política enriquece? A política empobrece se você a fizer com

dignidade. Eu estaria em uma condição muito diferenciada se, como empresário que era, tivesse aproveitado as oportunidades econômicas de 1998 para cá. A vida pública ficou muito perversa, vulnerável, do ponto de vista de se achar que todos tiram proveito dela. Aqui está falando alguém que nunca tirou proveito da vida pública. Tudo o que ganhei foi com meu trabalho.

Deixe uma resposta