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Jogar e ganhar é o título da coluna de João Domingos no Estadão

Com o apoio cada vez maior dos partidos à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara, e também do Palácio do Planalto, só que por debaixo dos panos, muitos perguntam por que o deputado Jovair Arantes (PTBGO) insiste em disputar a eleição.

Já perdeu, dizem esses muitos. Eles têm razão. É quase certo que Jovair perderá a disputa. O grupo que se denomina “Centrão”, ao qual ele pertence, esfacelou-se. Boa parte do aglomerado partidário bandeou-se para os lados de Rodrigo Maia. A derrota é só uma questão de dias.

Para Jovair, no entanto, não importa qual será o resultado. Ele sabe que, individualmente, será um vencedor, diz o cientista político Antônio Augusto de Queiroz, que desde a Constituinte estuda o comportamento dos parlamentares para o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) e coordena os estudos sobre as “100 maiores cabeças do Congresso”, feitos anualmente.

A grande aposta de Jovair Arantes não foi no voto do baixo clero, pois esse não é confiável e não lhe dará votos nem para que consiga ir ao segundo turno, afirma Queiroz. Ele jogou foi com a inviabilidade jurídica da candidatura de Rodrigo Maia. Se a Justiça entendesse – ou ainda entender – que Maia não pode se candidatar à reeleição, Jovair será o candidato único da base do governo, porque o presidente Michel Temer não se preocupou em construir um outro nome.

Caso a Justiça entenda que não deve se meter na eleição da Câmara, tendência verificada no Supremo Tribunal Federal (STF), Jovair terá a seu dispor a liderança do PTB, que exerce há anos, maior prestígio na direção do partido e condições favoráveis para continuar negociando cargos com o governo, talvez até mesmo um ministério para ele. Seus afilhados políticos continuam sendo nomeados. Ele já tinha o controle da Conab nos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff. Continua mandando na estatal no governo de Temer. Há pouco mais de uma semana emplacou mais um protegido lá.

A eleição para a presidência da Câmara registra muitos outros movimentos políticos, além da esperteza de Jovair Arantes ao se lançar candidato.

A aliança da oposição com o DEM de Rodrigo Maia é um deles. Do lado do PT, dirigentes e militantes puristas reclamam de um acordo com os partidos do governo, que eles insistem em chamar de “golpistas”. Dizem que é um ato desmoralizador, que lhes rouba as bandeiras e lhes tira a razão.

Há, na aliança, um pouco de pragmatismo político. O PT quer espaço nas Mesas Diretoras da Câmara e do Senado. Lá, argumenta que pode influenciar na pauta de votações, impedindo que o governo imponha sua agenda. Há também um pouco do gostinho pelo poder, que quase ninguém admite, mas muita gente com ele se delicia.

O curioso é que essa aliança entre a oposição e o DEM só prospera porque os dois lados são ideológicos e antagônicos. Um representa o campo da centro-esquerda e o outro o da centro-direita. Os conceitos estão batidos e velhos, mas os partidos mesmo insistem em se qualificar assim.

Para Antônio Augusto de Queiroz, quando um partido ideológico negocia com outro também ideológico, ele sabe que acordos serão cumpridos. Não de mérito, porque aagendadeumladoedeoutroé exatamente o oposto. Mas de procedimentos. Se foi acertado que ninguém será atropelado numa votação, isso sempre será cumprido.

As vezes em que foi feita uma tentativa de acordo entre um lado ideológico e outro fisiológico, o ideológico perdeu tudo, porque nada foi respeitado.

Portanto, ao manter sua candidatura, Jovair Arantes sabe que vai ganhar. E o PT e seus seguidores, como o PC do B, ao se aliarem a Rodrigo Maia, sabem também.

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