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A chapa está esquentando é o título de reportagem da Veja sobre julgamento no TSE de chapa Dilma-Temer

O PROCESSO que pode levar à cassação do mandato do presidente Michel Temer já tem 15 000 páginas e reuniu um conjunto de evidências que não deixam margem a qualquer dúvida: dinheiro sujo, oriundo de múltiplos esquemas de corrupção, foi usado para reeleger Dilma Rousseff. Parte dessas transações já foi amplamente mapeada pela Lava-Jato. A outra parte vai complicar a situação do peemede-bista no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que julgará uma ação que pede a cassação da chapa vitoriosa na última sucessão presidencial. O relator do caso, ministro Herman Benjamin, decidiu requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) cópias dos depoimentos dos executivos da Odebrecht tão logo suas delações sejam homologadas. Pelo que já foi revelado, sabe-se que a empreiteira, além de com-

prometer Dilma e os petistas, relatou ter feito doações clandestinas ao PMDB, a pedido de Temer. Os dois partidos, portanto, teriam se beneficiado fraternalmente do mesmo dinheiro ilegal, alcançado os mesmos benefícios e praticado os mesmos crimes eleitorais.

O conjunto das evidências de irregularidades ganhou um potente anexo na semana passada. Em relatório encaminhado ao TSE, a Polícia Federal disse que parte dos valores desembolsados a gráficas pela chapa formada por Dilma e Temer não resultou na prestação de nenhum tipo de serviço. O dinheiro teria sido desviado para pessoas físicas e jurídicas “em benefício próprio ou de terceiros”. Uma das gráficas investigadas pela PF foi a Focai Confecção e Comunicação, que recebeu 24 milhões de reais durante a campanha. Localizada em São Bernardo do Campo (SP), a Focai pertence, na prática, a Carlos Cor-tegoso, conhecido como “o garçom de Lula” e amigo de longa data do ex-presidente da República. As digitais do PT de Dilma estão espalhadas por todos os cantos do processo. As do PMDB de Temer começam a aparecer em maior escala.

Em julho de 2014, meses antes das eleições, Michel Temer reassumiu a presidência do PMDB para arbitrar uma disputa interna. O motivo da briga era o de sempre: dinheiro. Deputados do partido se diziam lesados pelos senadores, que haviam acertado com a JBS, a maior processadora de carne bovina do mundo, o recebimento de

uma contribuição financeira de 40 milhões de reais. Os deputados queriam uma parcela da grana. Os senadores recusavam-se a dividir o butim. A história, que rendeu uma pesada troca de acusações nos bastidores, tornou-se pública com a delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Trans-petro. Depois da intervenção, Temer envolveu-se pessoalmente na coleta de recursos em benefício de seu grupo político e da própria candidatura à reeleição.

O peemedebista abriu uma conta bancária para receber doações eleitorais como candidato a vice–presidente da República. Arrecadou cerca de 20 milhões de reais. Entre os doadores, há empresas investigadas por suspeita de pagamento de propina, como OAS, Andrade Gutierrez e JHSF. Os valores foram declarados à Justiça Eleitoral, mas a Polícia Federal, num relatório a que VEJA teve acesso, registra que doações efetuadas por dois acionistas do Grupo Libra, de 1 milhão de reais, merecem ser analisadas com lupa. A suspeita é que o dinheiro tenha sido desembolsado como pagamento pela defesa de interesses da companhia. Nessa troca de favores, o ex-depu-tado Eduardo Cunha, aliado de Temer, teria desempenhado papel de destaque. No decorrer da caçada a Cunha, a Lava-Jato fez buscas em endereços do investigado. Numa dessas batidas, apreendeu um pen drive com informações sobre o Grupo Libra, com destaque para um projeto que dependia

do aval de órgãos do governo federal para sair do papel.

“Acredita-se que, conforme indicação do nome Libra no próprio pen drive, alguém relacionado ao grupo tenha repassado tais dados para o conhecimento de Eduardo Cunha, sob pretexto ainda duvidoso. Segundo consta, o referido projeto precisaria de autorização da Secretaria Especial de Portos e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários, o que, por si, já gera suspeitas sobre os motivos de tais documentos estarem em poder do investigado”, diz a PF no relatório. Em seguida, a PF lembra que Cunha foi o relator da MP dos Portos e, nessa função, acolheu demandas do Grupo Libra. O relatório, então, associa esse lobby bem-sucedido à candidatura de Temer. “Foram coletadas informações que dão conta de que o referido grupo empresarial teria doado 1 milhão de reais para a campanha do vice-presidente Mi-chel Temer, do PMDB, o que gerou uma série de rumores e suspeitas acerca de tal doação, e que carecem de maior análise.”

Em 2013, ano em que a MP dos Portos foi aprovada, Cunha levou

um dos acionistas do Grupo Libra, Gonçalo Torrealba, para uma reunião com Temer no Palácio do Jaburu. VEJA perguntou à assessoria do presidente qual fora o assunto tratado no encontro. Não obteve resposta. Para escapar do processo no TSE, o presidente tem alguns trunfos na manga. O primeiro é conseguir o aval jurídico para uma tese levantada por sua defesa: a de que as contas de campanha da chapa, embora apresentadas em conjunto, como manda a legislação, devem ser consideradas em separado. Ou seja, o PMDB não teria nada a ver com as propinas arrecadadas pelo PT. O problema é que há evidências de que as propinas podem ter se misturado. Outra alternativa é apostar na morosidade do processo. VEJA perguntou

ao presidente quem pedira cada uma das doações feitas a sua campanha em 2014. Por meio de assessoria, ele disse o seguinte: “O então candidato à Vice-Presidência Michel Temer abriu conta no Banco do Brasil para este fim, com a devida prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral ao fim do período detalhando toda a movimentação feita na eleição. Durante o pleito, recursos foram doados à campanha ou depositados e transferidos para campanhas de outros candidatos do PMDB nos estados. Doadores, partido e candidato respeitaram todos os limites e as determinações da lei para arrecadação de recursos e despesas atinentes aos custos da disputa de 2014”.

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